4 de março de 2015

Crítica | 118 Dias

Gael García Bernal em 118 DIAS (Rosewater)

★★★

Rosewater, EUA, 2014 | Duração: 1h42m56s | Lançado no Brasil em 5 de março de 2015, nos cinemas | Baseado no livro de Maziar Bahari e Aimee Molloy. Roteiro de Jon Stewart | Dirigido por Jon Stewart | Com Gael García Bernal, Kim Bodnia, Dimitri Leonidas, Shohreh Aghdashloo, Haluk Bilginer, Claire Foy.

Pôster/capa/cartaz nacional de 118 DIAS (Rosewater)Há uma cena particular em 118 Dias que, além de extremamente poética em sua ironia, é riquíssima de significado: enquanto destroem dezenas de antenas parabólicas clandestinas, agentes iranianos têm todo o esforço de limitar a circulação de informações no país sabotado por um jovem que, com um mero telefone celular, registra toda a ação em vídeo - e bem sabemos que, caindo na rede mundial de computadores, uma filmagem com um cunho politico como este tem boas chances de repercutir (ou viralizar, como costumamos dizer por aqui), afetando em maior ou menor grau o curso da História.

Da mesma forma, é extremamente sintomático que, graças a um engano quase tragicômico, o jornalista canadense-iraniano Maziar Bahari tenha sido encarcerado por autoridades iranianas e opressivamente interrogado ao longo de quase quatro meses, período em que todas suas ações prévias como jornalista (ou mesmo como indivíduo) se tornaram indícios de espionagem na mente paranoica dos interrogadores. Escrito e dirigido por Jon Stewart com base em uma história real, o filme segue Bahari (Gael García Bernal) durante sua cobertura das eleições iranianas de 2009 para a Newsweek, publicação semanal para a qual o sujeito trabalhava na ocasião. Após testemunhar as controvérsias do processo eleitoral, entrar em contato com partidários de ambos os lados da disputa e participar de uma entrevista para a tevê americana com teor cômico, o homem é arbitrariamente preso por suspeita de espionagem e mantido por cento e dezoito dias em condições degradantes, sem nenhum contato com a família ou qualquer acesso ao mundo exterior.

Estreia apropriada do comediante e apresentador Jon Stewart como cineasta, 118 Dias é um projeto com óbvio cunho pessoal (a entrevista jocosa que Bahari cedeu a um repórter toscamente fantasiado de espião norte-americano foi exibida no The Daily Show) que, acima de tudo, discute a influência que a disseminação da informação exerce sob a ordem mundial. Mais que isso, a produção destaca especialmente a importância do uso correto de tudo o que é divulgado e reproduzido através dos mais diversos canais de comunicação: a prisão de Maziar, por exemplo, talvez jamais tivesse ocorrido caso seus encarceradores tivessem discernimento suficiente para interpretar uma cena televisiva cômica como tal. Além disso, o filme também enfatiza a importância da informação como arma política ao expor como a desinformação é utilizada por governos abusivos no processo de alienação de seu povo - o que fica claro nos esforços de abafar a revolta ativa da esposa de Bahari, que superam qualquer empenho de corrigir o erro cometido contra o protagonista.

Gael García Bernal em 118 DIAS (Rosewater)

O período em que Maziar permaneceu recluso, porém, não oferece matéria-prima muito promissora para o roteiro: quando não há interrogatórios ou outras situações que levem a narrativa adiante, o protagonista é obrigado até mesmo a ter conversas com entes falecidos para preencher tempo - um recurso bobo e ineficaz. Mesmo assim, o desempenho de Gael García Bernal em todo o filme é digno de nota: dinâmico quando livre e assustadiço quando aprisionado, o ator se porta como um homem comum exposto a uma situação atípica e hostil, temendo pela própria segurança, fazendo eventualmente leituras corretas sobre seu interrogador e usando isso a seu favor quando conveniente.

Jon Stewart, por outro lado, não se contenta em conduzir o longa de forma discreta e, em mais de uma ocasião, aposta em recursos que chamam a atenção mais para a execução do que pela finalidade das tais decisões, como a montagem em que tags e hashtags se misturam ao cenário de uma paisagem urbana - isso sem mencionar, é claro, o momento embaraçoso em que Stewart subestima a inteligência do espectador de forma ostensiva e se dá ao trabalho de explicar que as antenas parabólicas clandestinas são uma porta de entrada para conteúdo político vindo de vários cantos do planeta.

Entretanto, o razoável conjunto da obra e as bem articuladas questões políticas que o caracterizam são o bastante para que a esforçada e pouco divulgada estreia de Jon Stewart como cineasta mereça não passar de todo batida.

Gael García Bernal e Kim Bodnia em 118 DIAS (Rosewater)