16 de julho de 2014

Crítica | Juntos e Misturados

Drew Barrymore e Adam Sandler em JUNTOS E MISTURADOS (Blended)


Blended, EUA, 2014 | Duração: 1h57 | Lançado no Brasil em 17 de Julho de 2014, nos cinemas | Escrito por Ivan Menchell e Clare Sera | Dirigido por Frank Coraci | Com Adam Sandler, Drew Barrymore, Kevin Nealon, Terry Crews, Wendi McLendon-Covey, Emma Fuhrmann, Bella Thorne, Braxton Beckham, Alyvia Alyn Lind, Joel McHale, Abdoulaye NGom, Kyle Red Silverstein, Zak Henri e Shaquille O'Neal.

Pôster/capa/cartaz nacional de JUNTOS E MISTURADOS (Blended)
Custo a acreditar que os produtores de Juntos e Misturados não conseguiram captar a ironia contida no título do filme. Fazendo referência às novas famílias formadas a partir da união entre pais solteiros, divorciados ou viúvos e às eventuais dificuldades de conciliar idades, gostos e personalidades de padrastos, madrastas e enteados, o título também parece comentar a natureza do próprio roteiro, que tenta reunir cacos e retalhos de outras produções prévias, incluindo, naturalmente, algumas estreladas pelo próprio Adam Sandler - e diferentemente do modus operandi água-com-açúcar das narrativas comumente escolhidas pelo comediante, o casamento dos vários elementos reciclados aqui não é particularmente feliz.

Escrito por Ivan Menchell e Clare Sera, Juntos e Misturados parece uma espécie de refilmagem disfarçada de Esposa de Mentirinha, que o próprio Sandler estrelou e lançou há pouquíssimas primaveras. No filme, Jim (Sandler) é um pai viúvo e Lauren (Drew Barrymore) é uma mãe divorciada que se conhecem em um encontro às cegas desastroso e que, graças a circunstâncias absurdas que me recuso a descrever aqui, acabam viajando para o mesmo resort de luxo na África do Sul e são encarados constante e erroneamente pelos funcionários e hóspedes como uma família do tipo apontado pelo título do filme. Nesse contexto, Lauren acaba preenchendo involuntariamente o vácuo deixado pela ausência de uma figura materna na vida das filhas de Jim, que por sua vez desenvolve uma inesperada afinidade com os filhos da mulher – o que naturalmente estreita os laços da dupla.

Abraçando sem qualquer tipo de pudor a antiquada dinâmica do casal que briga, mas no fundo se ama, o roteiro é esquemático ao extremo: cada um dos sete personagens principais (os dois adultos e as cinco crianças) possui um traço singular de personalidade que precisa ser trabalhado antes que os créditos finais invadam a tela. Assim, os complexos de vaidade da jovem Hilary (Bella Thorne) ou a dificuldade de rebater bolas de beisebol do garoto Tyler (Kyle Red Silverstein), por exemplo, dão abertura para que posteriormente, como todos somos capazes de prever, vejamos a garota desfilando com um visual deslumbrante e o rapaz realizando um home run em uma partida importante. Além disso, o fato de as crianças serem sempre ajudados pelo desafeto de seus respectivos pais é uma estratégia extremamente óbvia e previsível para reforçar o potencial contido na esperada união entre Jim e Lauren, manipulando as emoções do público de forma rasteira.

Adam Sandler em JUNTOS E MISTURADOS (Blended)

Dirigido por Frank Coraci (do razoável Click e do detestável O Zelador Animal), o filme é consideravelmente menos ofensivo do que o esperado de uma produção da Happy Madison – o que talvez explique por que as tentativas de humor são mais esparsas e extremamente desajeitadas e ineficazes, a seu próprio modo. Embora encarne sua persona adolescente e imatura de sempre, Sandler parece enxergar o peso da idade e surge mais contido que o habitual, preterindo grosserias sexuais e escatológicas (que estão lá, claro, mas em menor quantidade) a favor da ênfase na importância dos vínculos familiares (o que culmina em uma canção que, executada nos créditos finais, é interpretada por Sandler e suas filhas da vida real e conta com comentários engraçadinhos sobre a rotina da família, numa decisão surpreendentemente simpática do comediante).

Como também era de se esperar, Juntos e Misturados é repleto de personagens secundários excêntricos que, surpreendentemente, conseguem divertir em uma ou outra oportunidade – com destaque para o grupo musical Thathoo, que, liderado pelo sempre exaltado personagem de Terry Crews, surge inesperadamente em ocasiões das mais inoportunas. Por outro lado, o conflito que é criado e desenvolvido no terceiro ato revela-se uma indiscutível afronta à inteligência do público – que, curiosamente, tem comparecido menos aos cinemas para conferir a produção; Juntos e Misturados já é uma das bilheterias menos expressivas da carreira de Sandler.

Parece que nem mesmo apostar em fórmulas já testadas – sejam as diversas convenções abraçadas pelo roteiro ou mesmo o resgate da parceria com Drew Barrymore – está sendo suficiente para sustentar a manufatura de bobagens do comediante.

Terry Crews em JUNTOS E MISTURADOS (Blended)