2 de maio de 2013

O Sonho de Wadjda

Waad Monhammed em O SONHO DE WADJDA (Wadjda)

O Sonho de Wadjda é o primeiro longa-metragem produzido e rodado na Arábia Saudita sob o comando de uma mulher - uma imensa conquista dentro de uma cultura cuja ortodoxia é alvo de críticas do próprio roteiro da cineasta saudita Haifaa Al-Mansour. Tomando o sonho da jovem Wadjda (Waad Monhammed) de ter uma bicicleta - posse exclusiva de garotos por lá - como metáfora para sua inconformidade naquela sociedade, Al-Mansour apresenta as várias frentes cruéis do sexismo da cultura islâmica e os prejuízos que tamanhas restrições trazem para seus indivíduos (do sexo feminino, em particular, naturalmente).

E a diretora não se prende apenas às consequências diretas das restrições oficiais, abordando também os desdobramentos do enraizamento daquelas regras. O fundamentalismo da mãe (Reem Abdullah) de Wadjda é o maior exemplo disso: capaz de repreender a filha por esquecer o Alcorão aberto (porque o Diabo pode cuspir no livro), a mulher reprime seu próprio livre arbítrio com esforços para manter o marido (Sultan Al Assaf) próximo e evitar que este procure outras esposas. Assim, embora deseje ter os cabelos mais curtos, a personagem mantém o comprimento que agrada o homem, da mesma forma que, por temer o ciúme do marido, ela abre mão de um emprego mais cômodo em um hospital próximo de casa em função da necessidade de exibir seu rosto e interagir com outros homens, permanecendo em um trabalho exaustivo que a obriga a enfrentar um longo translado e a lidar com um motorista grosseiro.

Wadjda, por outro lado, é uma garota sonhadora cujos desejos, considerados rebeldes e transgressores, são perfeitamente saudáveis e naturais a crianças de culturas menos rígidas espalhadas pelo mundo. Aliás, Al-Mansour também não deixa de alfinetar a ironia de uma sociedade que permite a entrada de produtos estrangeiros (o ônibus escolar segue o típico padrão norte-americano e Wadjda presenteia a mãe com uma caneca que tenta omitir o "Made in China" sob um adesivo), mas não é receptiva a costumes como a igualdade de gêneros, cujo progresso transcorre em pleno vapor em boa parte do mundo.

Além disso, a diretora consegue transmitir algumas mensagens de forma absolutamente econômica, como o raccord que salta de um plano externo de um homem inserindo água no radiador de um carro para um interno de uma mulher enchendo uma chaleira, ou ainda aquele em que a mãe de Wadjda, vestindo uma burca que esconde toda sua beleza (e Reem Abdullah, bem como outras várias mulheres do elenco, são realmente muito bonitas), observa um belo vestido vermelho na vitrine de uma loja de um shopping center. Para completar, Al-Mansour consegue desenvolver com delicadeza a relação indecorosa (para os padrões islâmicos) entre a protagonista e o garoto Abdullah (vivido pelo sorridente e carismático Abdullrahman Al Gohani), que tem sua infância afetada pela obrigação de assumir funções próprias de adultos ou mesmo por se ver forçado a pensar como um, algo sintetizado por um de seus últimos diálogos com Wadjda.

Apresentando uma sociedade capaz de proibir demonstrações de afeto e admiração (ou até mesmo troca de flores) em uma escola de garotas por temer um infundado avanço do lesbianismo na instituição, O Sonho de Wadjda encanta pela divulgação da força e do empenho das mulheres (sauditas ou não) na busca por seu justo espaço na sociedade - e analisando a dimensão e a velocidade dos progressos, o Converse All Star surrado de Wadjda - símbolo máximo de sua inconformidade - ainda terá uma longa caminhada pela frente.


Wadjda, Arábia Saudita/Alemanha, 2012 | Roteiro de Haifaa Al-Mansour | Dirigido por Haifaa Al-Mansour | Com Waad Mohammed, Abdullrahman Al Gohani, Reem Abdullah, Ahd, Sultan Al Assaf, Mohammed Zahir, Sara Aljaber.