15 de abril de 2013

Phil Spector

Helen Mirren e Al Pacino em PHIL SPECTOR

O simples fato de ser ou não baseado em uma história real pode mudar completamente a percepção sobre um filme. Caso não fosse inspirado em um caso verídico, o vencedor do último Oscar, Argo, por exemplo, provavelmente seria amplamente rejeitado pela crítica e pelo público em função da trama absurda e ufanista. A relação de Phil Spector com a realidade encontra-se em um espectro pouco usual, introduzido pelos seguintes dizeres: "Este filme é uma obra de ficção e não é baseado em uma história real. É inspirado em pessoas reais em um julgamento". Por que, então, preservar os nomes dos envolvidos ou os desdobramentos exatos do processo (incluindo textos finais que comentam a resolução), quando usados como pano de fundo para a construção de personagens cuja fidedignidade é deixada em aberto?

É fácil supor que as maiores liberdades artísticas do projeto dizem respeito ao desenvolvimento do personagem-título, cuja figura inspiradora não contribuiu na produção do roteiro. A longa cena em que Spector surge pela primeira vez deixa isso bastante claro: repleto de assuntos não relacionados ao julgamento, o primeiro encontro entre Phil e a advogada Linda Kenney Baden (Helen Mirren, de Hitchcock) falha pela tentativa extrema e forçada de estabelecer o dono de um bizarro falso castelo como um sujeito excêntrico e disperso. Embora peque por assumir um lado no caso (o espectador é constantemente convencido que o réu é inocente), o diretor e roteirista David Mamet utiliza razoavelmente bem o posicionamento para estudar a personalidade do personagem meio real, meio fictício: o Phil Spector de Al Pacino (em uma atuação que nos impulsiona a começar a esquecer de Cada um Tem a Gêmea Que Merece) é um homem cujo imenso orgulho sabota constantemente as chances de um veredito favorável, como, por exemplo, através da incapacidade de se sujeitar à teatralidade exigida pelo tribunal - e não é à toa que, só no início do último terço do longa, Spector conta sua versão sobre a morte da atriz Lana Clarkson para a advogada.

Produzido por Barry Levinson (que já havia dirigido um muitíssimo superior drama de tribunal estrelado por Al Pacino para a HBO, Você Não Conhece Jack), Phil Spector é um longa que se esconde atrás da inspiração em eventos reais para justificar o estudo de um caso pouco interessante, que ainda por cima é desenvolvido de forma negligente (em certo momento, um intérprete brasileiro é solicitado pela personagem de Mirren para examinar as declarações do motorista do réu, mas esta vertente da investigação para por aí). Se Mamet não ficasse tão em cima do muro - isto é, decidisse entre ficcionalizar efetivamente a história de Spector ou mergulhar de forma fiel em um caso real mais detalhado e promissor -, talvez teríamos visto uma obra mais interessante.


Phil Spector, EUA, 2013 | Roteiro de David Mamet | Dirigido por David Mamet | Com Helen Mirren, Al Pacino, Jeffrey Tambor, Chiwetel Ejiofor, Rebecca Pidgeon, John Pirruccello, James Tolkan, David Aaron Baker, Matt Malloy, Meghan Marx.