19 de abril de 2013

Ginger & Rosa


Ginger (Elle Fanning) e Rosa (Alice Englert) são como unha e carne. Nascidas em 6 de agosto de 1945 - o mesmo dia do bombardeio nuclear de Hiroshima - dos ventres de mães amigas, as garotas cresceram juntas e, aos 17 anos de idade, raramente se desgrudam, andando sempre de braços dados e desenvolvendo atividades próprias de garotas da idade e da época, como encolher os jeans submergindo-os na banheira ou alisar os cabelos com ferro de passar roupa. Aliás, ambas possuem até mesmo tipos físicos bem parecidos, com os cabelos surgindo como uma das exceções: embora igualmente compridos, os de Rosa tendem a um castanho que se difere do rubor marcante dos de Ginger. Como em um leve simbolismo, essa distinção física pode ser carregada para o cunho psicológico das amigas: criadas próximas, mas sob a influência de ambientes familiares distintos, as duas possuem personalidades bastante destoantes - e o simbolismo é praticamente confirmado pela cineasta Sally Potter quando o novo corte de cabelo de Rosa marca, também, o distanciamento das personagens que dão título ao filme.

Desprovida de uma figura paterna, Rosa é uma adolescente insubmissa, transgressora e mais atirada sexualmente: em determinada cena, a garota vai de uma troca de olhares aos beijos com um desconhecido usando apenas a linguagem corporal, sem qualquer troca de palavras. Por essa razão, a personagem de Alice Englert demonstra uma vivência mais expressiva que a da amiga, de modo que quando Ginger lhe relata certos conflitos familiares, por exemplo, Rosa é capaz de antecipar a maior parte dos desdobramentos do caso. Diferentemente da amiga, a personagem de Elle Fanning é mais ingênua, gosta de escrever poesias e foi criada pelos pais, Roland (Alessandro Nivola) e Natalie (Christina Hendricks), cujo casamento acaba de entrar em colapso. Entretanto, a característica mais marcante de Ginger é sua notável crise de ansiedade adolescente disfarçada de altruísmo: a preocupação com uma iminente guerra nuclear em meio à crise dos mísseis de Cuba é um reflexo direto da efervescência de sua mente jovem e imediatista, que quer abraçar o mundo ao mesmo tempo que tende a supervalorizar quaisquer contrariedades, encarando-as como sinais do fim de seu mundo particular. Ainda nesse sentido, há um claro paralelo entre a detonação nuclear que Ginger tanto teme e seu desmoronamento emocional, fruto do acúmulo de ansiedades oriundas dos segredos e sofrimentos que é obrigada a guardar para si.

E o grande destaque de Ginger & Rosa é, sem dúvidas, o desempenho da jovem Elle Fanning, que atinge um nível de maturidade surpreendente e admirável - o que leva em conta não só a qualidade de sua interpretação, mas também o fato de que a atriz, aos 13 anos, vive uma adolescente quatro anos mais velha de forma extremamente convincente. A segurança da atriz no longo plano que encerra a projeção apenas reforça que a irmã mais nova de Dakota Fanning ainda deverá trazer muitas alegrias para os cinéfilos.

★★★

Ginger & Rosa, Reino Unido/Dinamarca/Canadá/Croácia, 2012 | Escrito por Sally Potter | Dirigido por Sally Potter | Com Elle Fanning, Alice Englert, Alessandro Nivola, Christina Hendricks, Timothy Spall, Oliver Platt, Annette Bening, Jodhi May, Andrew Hawley.