8 de outubro de 2012

O Segredo


Sou um entusiasta confesso do positivismo, por razões óbvias. É natural que uma pessoa pessimista acabe abandonando atitudes que poderiam recompensá-la com coisas boas, além de criar obstáculos ou simplesmente tornar-se incapaz de identificar quando oportunidades generosas batem à porta. Também acredito que o pensamento positivo tem o poder de atrair coisas boas - e, até algum tempo atrás, julgava desnecessário ressaltar que essa crença pertence ao campo figurativo.

Eis que assisto a O Segredo e sou confrontado por uma gangue de charlatões afirmando categoricamente que essa atração possui uma base científica, obviamente incomprovada. E ainda: minha inteligência é afrontada pela afirmação de que grandes sábios da humanidade conheciam e aplicavam esse princípio e passaram séculos mantendo-o em segredo (entendeu?). Só não foram sábios o bastante (tolinhos!), claro, para evitar que, séculos depois, caísse nas mãos de... de quem mesmo?

Pouco importa, já que é necessária uma dose cavalar de ingenuidade para acreditar em pelo menos 1% do que os autores e divulgadores da chamada Lei da Atração pregam, utilizando termos físicos como "energia", "ondas" e "frequência" sem qualquer respaldo científico e jamais se preocupando em explicar, por exemplo, o que diferencia fisiologicamente um pensamento positivo de um negativo - o que seria fundamental para explicar a proposição de que um único pensamento negativo é capaz de derrubar o investimento empregado em uma longa sequência de positivos. Aliás, positivismo e negativismo não são criações da mente humana? E não cabe aí um espaço para a subjetividade, que permite que um mesmo pensamento possa ser positivo para uma pessoa e negativo para outra?

Nessas circunstâncias, os "documentaristas" recorrem a "casos verídicos" para tentar comprovar o princípio, e é aí que a coisa desanda de vez. Em um deles, um homem sorridente comenta que nunca demora mais que um par de minutos para encontrar vagas em estacionamentos, mesmo lotados. Como? Mentalizando com muito empenho. Simples assim. De dar inveja a qualquer Harry Potter. Ainda segundo o longa, pensar em dívidas apenas faz com que estas reajam como Gremlins expostos à água (e eu achando que endividamentos aconteciam quando as pessoas não pagavam suas contas!) - e o contrafeitiço para elas, vocês devem imaginar, é trivial (e não, não envolve "diminuir gastos supérfluos e trabalhar para quitá-las"). Em outro momento, alguém afirma que, se um candidato supostamente dono da preferência da minoria vence uma eleição, a responsabilidade cabe à mentalidade dos eleitores, que desejaram sua derrota com maior vigor do que aspiraram a vitória do opositor, ignorando completamente o ato em si de votar (se um candidato é a preferência da maioria, ele vencerá. Ponto).

Assassinando sem dó o livre arbítrio, O Segredo ainda ignora os conflitos que naturalmente surgiriam caso toda a população mundial aplicasse o fantasioso método: se a humanidade inteira desejasse ser rica, não haveria dinheiro suficiente para atender a todos; se duas pessoas ambicionassem um mesmo objetivo, a técnica invariavelmente falharia para (pelo menos) uma delas; desejar com muito empenho que um objeto caia para cima não alterará a força de atração exercida pela Terra, independente da intensidade de sua atividade cerebral. Com tantos furos, chega a ser até engraçadinho o esforço de criar explicações que preencham as avantajadas lacunas da teoria - em particular, quando descobrimos que não é possível precisar o tempo necessário para que as solicitações sejam realizadas, tudo fica claro: se você desejar algo e não for atendido em vida, é porque morreu antes que acontecesse. A culpa é sua, não do cosmos.

Por essas e outras, O Segredo é uma pavorosa sessão de autoajuda pra pessoas que, no fundo, precisam mesmo é da ajuda de um profissional - da psiquiatria, para ser mais exato.

The Secret, Austrália/EUA, 2006 | Conceito original de Rhonda Byrne | Dirigido por Drew Heriot, Sean Byrne, Marc Goldenfein e Damien Mclindon.