20 de setembro de 2012

Crítica | Ted

por Eduardo Monteiro

Ted, EUA, 2012 | Duração: 1h45m52s | Lançado no Brasil em 21 de Setembro de 2012, nos cinemas | História de Seth MacFarlane. Roteiro de Seth MacFarlane & Alec Sulkin & Wellesley Wild | Dirigido por Seth MacFarlane | Com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Joel McHale, Giovanni Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Bill Smitrovich, Aedin Mincks, Sam J. Jones, Norah Jones, Alex Borstein, Tom Skerritt, Ryan Reynolds e as vozes de Patrick Stewart e Seth MacFarlane.

Com tudo o que é apresentado nos 20 primeiros minutos de Ted, é perfeitamente possível antecipar com precisão as várias etapas do desenrolar da narrativa até que esta chegue a seu desfecho. Entretanto, o que nos leva a relevar a previsibilidade do roteiro e diferencia Ted de 90% das comédias despejadas semanalmente nos cinemas é o humor tipicamente ácido de Seth MacFarlane, que, em sua estreia no Cinema, reafirma o talento para a comédia adulta e escrachada que o roteirista, diretor, animador e dublador já havia demonstrado em Uma Família da Pesada, série animada que o alçou à fama e o transformou no roteirista de televisão mais bem pago dos Estados Unidos.

No filme, escrito pelo próprio MacFarlane juntamente com Alec Sulkin e Wellesley Wild (parceiros oriundos da tevê), John (Wahlberg) é um homem que, estagnado em um emprego ordinário e pressionado por sua bela namorada Lori (Kunis), precisa superar o bromance que vive com o amigo de infância e urso de pelúcia Ted (MacFarlane) - e a imaturidade de John, evidente em sua dificuldade crônica de acatar o pedido de Lori, é enfatizada de forma curiosa pelo fato quase alegórico de que seu colega de apartamento nada mais é que um brinquedo para crianças. Dessa forma, Ted é obrigado a procurar um emprego e um lugar para morar sozinho, tendo sua segurança eventualmente comprometida por um homem aparentemente instável (Ribisi) que demonstra um interesse obsessivo de presentear o filho com o urso de pelúcia falante.

Criado com o uso de computação gráfica, o personagem-título é uma criatura suficientemente convincente na maior parte do tempo (a cena em que Ted e John se estapeiam, mesmo absurda e abusando da sonoplastia, é um bom exemplo da eficácia do trabalho dos animadores) e, tirando a ligeira incompatibilidade entre sua boca e a ótima dublagem de MacFarlane, o boneco exibe movimentação e expressividade mais que apropriadas às exigências do personagem. Além disso, a gravação "Eu te amo!", que Ted repete involuntariamente sempre que comprimido, é uma ótima sacada e complementa maravilhosamente bem a composição do personagem, encaixando-se perfeitamente nos dois momentos distintos em que a fala surge durante a fase adulta de Ted e configurando seu apreço pelo dono (ou amigo, no caso) em um elemento quase intrínseco à sua personalidade (remetendo à vocação de entreter crianças exaltada pelos brinquedos de Toy Story).

Voltando a usar uma mente adulta presa em um corpo estranho como fonte de humor (o cachorro Brian e o bebê Stewie, de Uma Família da Pesada, valiam-se do mesmo princípio), os roteiristas preenchem o filme com uma série de piadas baseadas essencialmente na personalidade escrachada e na natureza inusitada de Ted, dos entraves que o personagem enfrenta como motorista às cartas atrevidas que diz ter enviado ao fabricante com reivindicações anatômicas. E se aceitamos que o ursinho consome e é afetado por drogas, satisfaz sexualmente mulheres e, eventualmente, se fere graças a rasgos ou arranhões, é porque o filme jamais tenta detalhar as regras que regem sua vida, um acerto tão essencial quanto a decisão correta de mencionar a fama e o interesse público em torno de Ted sem, contudo, valorizá-los demais.

Porém, a comédia certamente não seria tão divertida caso trouxesse um companheiro humano pouco competente ancorando a narrativa - e Mark Wahlberg, ator talentoso (com faro ruim para projetos, é verdade), retorna à comédia após o fraco Os Outros Caras emprestando seu carisma e porte físico a John, de modo que testemunhar um homem com duas toras como braços conversando com uma pelúcia ou lendo Tintim já é algo engraçado por si só. Completando o elenco, MacFarlane entrega a antigos parceiros de Uma Família da Pesada pequenos papeis que jamais se destacam - com exceção de Mila Kunis que, após dar voz ao longo de anos à execrada Meg, ganha aqui o papel de uma mulher apaixonada e, dentro dos limites cabíveis, compreensiva. Já Joel McHale, como o patrão de Lori, desce um tom da confiança inabalável do Jeff Winger de Community e, fora isso, atua em sua zona de conforto, enquanto Giovanni Ribisi se diverte com a brincadeira de gênero construída em torno de seu antagonista. Por fim, as pequenas participações especiais de figuras como Sam Jones, Tom Skerritt e Ryan Reynolds divertem e, evidentemente, revelam o bom humor dos artistas.

Estreando no comando de produções em live action, MacFarlane entrega uma direção discreta, raramente empregando algum movimento de câmera diferenciado (dentre as exceções, os travellings circulares que percorrem os dois sentidos de uma mesa e exprimem o êxtase de Ted e John sob o efeito de alucinógenos, por exemplo, funcionam bem) e fazendo uso de flashbacks de forma mais orgânica e contida do que em seus trabalhos televisivos - e tanto a ideia de John sobre a noite em que conheceu Lori quanto a limpeza que o casal promove no apartamento após uma farra de Ted são duas das cenas mais engraçadas do longa. Por outro lado, logo após introduzir a narrativa com uma abordagem propositalmente leve e infantil, que confronta de maneira divertida todo o restante do filme, o diretor opta por uma montagem absolutamente sem imaginação para representar a passagem de tempo (é realmente necessário mostrar a página do Facebook de John para que saibamos de seu relacionamento com Lori?) e, bem mais adiante, decepciona ao se entregar completamente à pieguice nos momentos finais da projeção. Além disso, ainda que o humor politicamente incorreto seja certeiro na maior parte do tempo, muitas piadas não funcionam como deveriam, e MacFarlane nem sempre possui total controle sobre o timing de suas gags: a imaginação de John no encontro com seu ídolo, por exemplo, não é mais surpreendente ou engraçada que os cabelos levemente esvoaçantes de ambos enquanto se aproximam, de modo que o nível constante de graça faz a piada parecer apenas longa.

Repleto de referências nostálgicas aos anos 80 e alfinetadas a elementos da cultura pop mais recente, o longa ainda pode funcionar aos olhos dos fãs de Uma Família da Pesada como uma releitura da relação entre Stewie e seu ursinho Rupert - mas a realidade é que, esteja o espectador habituado ou não ao trabalho de MacFarlane, a estreia no Cinema do diretor e roteirista é nada menos que bastante promissora.