18 de agosto de 2012

Crítica | O Vingador do Futuro

por Eduardo Monteiro

Total Recall, EUA/Canadá, 2012 | Duração: 1h58m03s | Lançado no Brasil em 17 de Agosto de 2012, nos cinemas | Inspirado no conto "We Can Remember it for You Wholesale" de Philip K. Dick. História de Ronald Shusett & Dan O'Bannon e Jon Povill e Kurt Wimmer. Roteiro de Kurt Wimmer e Mark Bomback | Dirigido por Len Wiseman | Com Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bryan Cranston, Bokeem Woodbine, Bill Nighy, John Cho, Dylan Scott Smith.

Independente de suas execuções, os roteiros de A Origem, K-PAX - O Caminho da Luz e O Vingador do Futuro merecem elogios por uma riqueza que possuem em comum: cada um consegue, a seu modo, fundamentar duas explicações distintas e plausíveis para a conjuntura em que seus protagonistas se encontram, tornando-se intrigantes justamente por adiar ou, principalmente, negar ao espectador uma resposta definitiva. Infelizmente, dentre os mencionados, o exemplar de O Vingador do Futuro produzido na última década do século passado é o que menos explora o potencial da ambiguidade de seu argumento - algo trabalhado de forma ainda menos satisfatória nesta reformulação comandada por Len Wiseman.

Aliás, do filme estrelado por Arnold Schwarzenegger, apenas o esqueleto é mantido: ambientado inteiramente na Terra, o remake introduz uma distopia futurista cuja ordem mundial é resumida à dominância da Federação Unida da Bretanha sobre a Colônia, territórios continentais livres de danos oriundos de uma devastadora guerra química e ligados pela Queda, meio de transporte em que uma enorme e veloz cápsula percorre um túnel que atravessa o interior do planeta. Nesse contexto, o operário Douglas Quaid (Farrell), atormentado por sonhos agitados e por sua rotina maçante, decide procurar a Rekall, uma empresa que oferece a seus clientes memórias personalizadas e realistas de situações que nunca tiveram a oportunidade de viver. Porém, logo que começa a receber recordações de uma carreira ilusória como agente secreto, o procedimento foge do controle e Doug é confundido com um espião de verdade, passando a ser perseguido por pessoas subordinadas ao misterioso chanceler Cohaagen (Cranston).

Mas qual é, afinal, a verdade sobre o protagonista? Quaid é um experiente agente secreto que teve suas experiências no ramo substituídas pela vivência ordinária de um operário ou toda a trama em que se envolve é fruto de distúrbios de sua mente frente a reações indesejadas do procedimento na Rekall? Diferentemente do filme de 90, que semeava a dúvida de forma esparsa (inclusive timidamente no desfecho), o roteiro de Kurt Wimmer (Salt) e Mark Bomback (Incontrolável) opta por conferir importância excessiva aos sonhos de Doug (o empenho da esposa em tentar interpretá-los é exagerado e deslocado) e enfatizar, através do personagem McClane (Cho), as possíveis implicações da inserção de uma memória que já tenha sido vivenciada pela mente, sustentando assim a hipótese de que tudo o que vemos é de fato real. Além disso, caso a perseguição fosse uma criação da mente de Quaid, qual o sentido de acompanharmos Lori (Beckinsale) tentando descobrir seu paradeiro - isto é, por que o homem teria uma vivência/memória de uma situação na qual ele próprio não se encontra? Assim, a hipótese fantasiosa é deliberadamente levantada apenas na eficiente cena de negociação transcorrida no saguão de um prédio - e mesmo que as duas possibilidades continuem válidas dali em diante, a discussão recai em reflexões tolas sobre identidade, jamais se equiparando em importância à ação desenfreada.

Neste aspecto, a escolha de Len Wiseman (Duro de Matar 4.0) para comandar a refilmagem revela-se um acerto. Sepultando a aborrecida luz estroboscópica (problema que apontei como uma marca da franquia Anjos da Noite, criada pelo diretor) logo após a sequência de abertura e abraçando a adoração de J.J. Abrams por flares, Wiseman conduz com bastante segurança as cenas de ação - algumas com inspiração clara na franquia Bourne (até um salto famoso durante uma perseguição por telhados de O Ultimato Bourne é reencenado) - e aproveita bem os cenários na criação da mise-en-scène da ação (como no apartamento do protagonista), merecendo destaque o movimento de câmera elaborado e calculado de um plano único (com cortes escondidos) que acompanha certo confronto de Doug na Rekall. Por outro lado, a sequência transcorrida no exterior do veículo da Queda causa irreparável embaraço pelo absurdo físico (velocidade, pressão, gravidade, tempo de percurso - todos são sumariamente ignorados), enquanto outras pecam pelo excesso de interrupções destinadas a frases de efeito - e, apenas para ilustrar, basta apontar que todas as piadas possíveis envolvendo o casamento farsesco de Douglas e Lori são feitas.

Enquanto isso, o design de produção de Patrick Tatopoulos e a direção de arte de Patrick Banister criam o mundo de O Vingador do Futuro como resultado da superpopulação mundial sendo obrigada a se adaptar a um espaço físico reduzido e limitado, concebendo a Colônia como um amontoado sujo e saturado de casas, pessoas e vielas enquanto a Federação, mesmo comportando prédios imponentes e espaços mais amplos e menos sufocantes, exibe uma estrutura baseada em camadas sobrepostas (repare, por exemplo, como a equipe de efeitos visuais transforma um possível jardim ou espelho d'água de certa locação em uma espécie de janela para o nível inferior, igualmente complexo e funcional). Somando-se ao aparato tecnológico amplamente explorado em outras ficções científicas, a equipe ainda concebe sua parcela de engenhocas originais (o telefone na palma da mão é uma boa sacada e substitui bem o rastreador do filme original) e acertam ao representar as áreas abandonadas do planeta não como ruínas, mas como paisagens afins à nossa realidade atual, porém desertas e dominadas uma espessa névoa química.

Infelizmente, toda essa eficiência técnica está a serviço de um roteiro pobre, que investe em uma conspiração pouco interessante e protela excessivamente algumas respostas com pistas sempre evasivas e incompletas, tornando irrelevantes todos os esboços de discussões políticas ou sociais. Nessas circunstâncias, os personagens são meras peças movendo-se em prol da construção do espetáculo: Colin Farrell - um ator competente em projetos apropriados - é um astro de ação inquestionavelmente eficaz, e o filme não exige dele nada além disso; o mesmo pode ser dito sobre Kate Beckinsale, que reprisa o vigor físico da franquia Anjos da Noite e desempenha a ação com competência, apesar de transformar Lori em uma figura caricatural cujas reais motivações nunca são esclarecidas. Fechando o elenco, Bill Nighy dando vida ao líder da resistência, ganha o posto de figurante de luxo do projeto, ao passo a Melina de Jessica Biel pouco tem a acrescentar à narrativa e, por fim, Bryan Cranston encarna Cohaagen como um vilão ausente e inescrupuloso que não exige um pingo de complexidade do talentoso ator.

Repleto de homenagens ao filme de 1990 (gosto particularmente da forma orgânica e funcional como aquela envolvendo um disfarce do protagonista é feita), este novo O Vingador do Futuro é um passatempo tolerável que, por mérito, representa uma experiência eficiente o bastante para não demandar que o espectador fantasie com a possibilidade de comparecer à Rekall com uma solicitação de remoção ou substituição - o que não impede que, com o tempo, o processo venha a ocorrer naturalmente.