13 de abril de 2012

Redescobrindo Titanic em 3D

TITANIC em 3D

Eu tinha apenas 7 anos quando assisti a Titanic pela primeira vez. Obviamente não recordo detalhes da sessão (é minha segunda recordação mais antiga de ida ao cinema, perdendo apenas para James e o Pêssego Gigante, dois anos antes), mas lembro que foi no imenso e extinto Cine Palladium (onde hoje funciona um teatro com mais de 1300 assentos) aqui em Belo Horizonte, na companhia de minha mãe, minha tia, meu irmão e meu primo (estes dois, com 8 e 10 anos, provavelmente). Éramos uns dos primeiros da fila, e havia uma ansiedade generalizada no ar, de modo que me recordo de algum estresse envolvendo o remanejamento da fila para permitir a saída da sessão anterior. Em seguida, tenho imagens imprecisas em minha memória da entrada na sala e da escolha dos lugares. Depois disso, eu sendo pego de surpresa pela excitação da fatia masculina da plateia no instante em que Kate Winslet fica nua, com direito a "fiu-fiu" e uma infusão de flashes de câmeras fotográficas, é a recordação mais forte que tenho de toda a sessão. Curiosamente, as reações contidas dos jornalistas e blogueiros durante a cabine de imprensa da versão em 3D realizada na última semana aqui em BH despertaram recordações daquela primeira sessão, perdidas ao longo destes 14 anos: lembrei-me da torcida do público em alguns instantes do clímax do filme, como no momento em que Rose (Kate Winslet) cospe na cara de Cal (Billy Zane) ou quando o vilão escorrega durante uma perseguição ao casal principal.

Meses depois daquela ocasião, eu e meu irmão compramos (ou ganhamos) a versão em VHS do filme e revimos incontáveis vezes. Tenho plena convicção de que Titanic é o filme que vi mais vezes na vida, ainda que nem sempre na íntegra (por diversas vezes, pulávamos direto para a cena do embarque dos passageiros). Em certa fase da adolescência, graças ao interesse por novos filmes e a uma truncada transição do VHS para o DVD, fiquei alguns anos sem assistir ao filme, voltando a fazê-lo em 2009 (aos 18 anos, portanto). Jamais o tendo visto com a maturidade necessária, sabia que descobriria uma porção de coisas novas, mesmo tendo uma memória fotográfica admirável e pleno entendimento de boa parte das situações e dos diálogos - e de fato, foi possível absorver vários elementos nunca antes percebidos. O que eu não esperava, entretanto, é que três anos depois, revê-lo nos cinemas (com a desculpa do relançamento em 3D) representaria uma nova redescoberta do filme, lançando por terra vários entendimentos infantis enraizados em minha memória.

Isso só foi possível porque, a certa altura, depois de tantas repetições, eu já havia decorado boa parte do filme e, assim, quando certa sequência tinha início, não era nenhuma surpresa para mim onde ela iria chegar. Pensar no que estava acontecendo, portanto, não era mais necessário, e raramente eu descobria algo novo (por muito tempo acreditei ingenuamente, por exemplo, que Fabrizio estava sendo sincero quando dizia, no início da viagem, que já conseguia ver a Estátua da Liberdade bem pequena). Dessa forma, quando Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose começam um determinado diálogo no convés do navio, eu sabia que a sequência prosseguiria com uma "aula de cuspe" e culminaria na chegada de Ruth (Frances Fisher) e Molly (Kathy Bates), partindo então para o jantar de gala e, depois, para a animada festa na 3ª classe - mas detalhes intermediários nunca ganhavam minha atenção. Ainda nesse sentido, apenas nesta última vez entendi plenamente, por exemplo, o desfecho da cena em que os personagens de DiCaprio e Winslet interagem pela primeira vez, quando o homem salva a vida da mulher: o flagrante dos dois deitados no chão, abraçados, ofegantes, com as roupas reviradas e após um grito de socorro de Rose é bastante sugestivo para uma mente adulta, mas minha mentalidade de criança se dava por satisfeita com a associação da posição desajeitada de Rose caída no chão com o fato de Cal ser o vilão - e com isso, por muito tempo, não dediquei maior atenção à passagem.

Aliás, já que citei essa cena, vale comentar que, também pela primeira vez, percebi como James Cameron usa a temática do primeiro encontro entre Jack e Rose como linha definidora do romance do casal, que em diversos momentos da trama proferem falas que remetem aos diálogos daquela cena - e mais interessante ainda é perceber como o diretor repete a ação de Jack em posição privilegiada na popa do navio içando Rose e salvando-a da morte em dois momentos distintos, criando uma interessante e irônica rima. Por outro lado, o horror das tragédias pessoais e coletiva permanece intacto desde meu primeiro contato com o filme - e seria uma enorme perda de tempo citar todas as ótimas sacadas de James Cameron para construir esse sentimento.

Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em TITANIC em 3D

No entanto, o objetivo principal do relançamento de Titanic nos cinemas não é exatamente comemorativo; a conversão para 3D é o grande foco da campanha de divulgação, uma vez que a fascinação que a tecnologia ainda exerce sobre muitas pessoas e o preço mais elevado do ingresso são o que garantirá o enchimento dos bolsos dos produtores. A boa notícia é que, longe de criar uma sensação de imersão equivalente à de um filme originalmente concebido com a tecnologia, o 3D acerta várias vezes, é indiferente na maior parte do tempo e erra feio apenas em poucas ocasiões. Para começo de conversa, duas cenas emocionalmente opostas (e passadas nos dois extremos do navio) envolvendo Rose ganham uma nova dimensão (trocadilhos à parte): mesmo sem um acréscimo efetivamente relevante, a inquietação de observar o mar enquanto ela ameça se jogar e a sensação de voo proporcionada por Jack na icônica cena na proa do navio se tornam mais palpáveis do que nunca para o espectador. O mesmo vale para os momentos finais do naufrágio do navio, que parecem receber um tratamento especial e funcionam muitíssimo bem em três dimensões, assim como cenas nas quais a câmera faceia o nível d'água (o instante em que Cal desiste de perseguir Jack e Rose é um bom exemplo).

Além disso, de modo geral, elementos visuais como barras, grades, botes, cordas e partículas em suspensão, colocados em planos diferentes, ajudam a conferir a desejada sensação de profundidade, ao passo que cenas que contam com personagens correndo (como Jack e Frabrizio, antes do embarque) destacam-se por alcançar apenas um meio termo, com os atores mudando de plano constantemente mas permanecendo com uma aparência chapada. A técnica usada para destacar os atores dos cenários ao fundo, aliás, é o que mais prejudica Titanic 3D: os cabelos brancos e desgrenhados de Gloria Stuart são um obstáculo que a equipe não consegue contornar com sucesso, surgindo sempre com um contorno bastante artificial. Para completar, a cena em que a câmera se aproxima de Leonardo DiCaprio parado em frente ao relógio no alto de uma escada escada é uma das mais artificiais de todo o longa, perdendo completamente a noção espacial e parecendo ter sido trabalhada por técnicos de CGI incompetentes.

Por fim, é interessante comentar que, diferentemente de George Lucas, James Cameron demonstra um certo respeito por sua obra original ao, por exemplo, manter intocados erros amplamente divulgados ao longo da última década e meia, como um reflexo da câmera que surge no vidro da porta do restaurante. No mais, a velha ladainha da falta de necessidade da conversão de filmes memoráveis para 3D volta a se aplicar aqui - mas considerando o já mencionado saldo positivo deste caso específico, deixo registrada minha recomendação, acreditando nas enormes possibilidades de uma revisita a Titanic na tela grande.

Pôster/capa/cartaz nacional de TITANIC em 3D
Titanic 3D, EUA, 2012 | Duração: 3h14m43s | Lançado no Brasil em 13 de Abril de 2012, nos cinemas | Escrito por James Cameron | Dirigido por James Cameron | Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Victor Garber, Bernard Hill, Jonathan Hyde, David Warner, Suzy Amis, Danny Nucci, Jason Barry, Ioan Gruffudd, Rochelle Rose.