10 de dezembro de 2011

Crítica | Noite de Ano Novo

por Eduardo Monteiro

New Year's Eve, EUA, 2011 | Duração: 1h57m38s | Lançado no Brasil em 9 de Dezembro de 2011, nos cinemas | Escrito por Katherine Fugate | Dirigido por Garry Marshall | Com Michelle Pfeiffer, Zac Efron, Hilary Swank, Jessica Biel, Seth Meyers, Til Schweiger, Sarah Paulson, Katherine Heigl, Sofía Vergara, Ashton Kutcher, Lea Michele, Sarah Jessica Parker, Abigail Breslin, Robert De Niro, Halle Berry, Josh Duhamel, Jon Bon Jovi, Chris 'Ludacris' Bridges, Carla Gugino, Larry Miller, Hector Elizondo, John Lithgow, Cary Elwes, Russell Peters, Jake T. Austin, Beth Kennedy, Lillian Lifflander, James Belushi, Rob Nagle, Ryan Seacrest, Matthew Broderick, Common.

Olha, não é aquele Sargento Hugo Stiglitz de Bastardos Inglórios? E aquela atriz e cantora ali, trabalha em Glee, certo? Veja, o De Niro, que surpresa! Meu Deus, porque colocaram tanta maquiagem na Pequena Miss Sunshine? E como ela está crescida! Veja só quem apareceu: o marido da Fergie! E não é que Dr. Lawrence Gordon voltou do primeiro Jogos Mortais com as duas pernas intactas! E aquele homem, o Ferris Bueller, teve outro dia de folga e veio invadir o filme da esposa, a Sarah Jessica Parker. Ela e Seth Meyers, por sinal, não fizeram um outro filme juntos esse ano, aquele Não Sei Como Ela Consegue? Veja, Zac Efron e Michelle Pfeiffer contracenando novamente, depois de Hairspray! E por que Ashton Kutcher não tirou o figurino de seu personagem em Two And a Half Men para gravar sua participação nesse filme? Aquele homem ali... como é mesmo o nome dele? James... Jim... Fez aquele seriado, According to Jim. Jim B... Jim Belu... Espera, já acabou sua participação? Foi só isso mesmo?

Todos os comentários e as perguntas acima estão sujeitas a vir à mente do espectador com a maior naturalidade durante uma sessão de Noite de Ano Novo. Aliás, arrisco-me a dizer que o surgimento dessas reflexões é a intenção prioritária do filme. E meu atrevimento não pára por aqui: ousarei também fazer suposições sobre o processo de pré-produção do filme. Baseado no que testemunhei, não estranharia se descobrisse que o longa saiu do papel de acordo com a seguinte sucessão de procedimentos: 1) Escolher uma outra data festiva qualquer (o Dia dos Namorados não pode, já foi usado) e manter a mesma proposta de Idas e Vindas do Amor; 2) Levar o projeto a grandes patrocinadores e oferecer aparições significativas de suas marcas durante a projeção, de modo a garantir um orçamento que permita o próximo item; 3) Selecionar um elenco com o maior número possível de rostos conhecidos, de vencedores do Oscar a revelações de seriados ou cantores, que consigam ser identificados e despertem a atenção do público e 4) Ligar para Katherine Fugate e encomendar um roteiro, especificando que nenhum núcleo deverá conter mais que dois ou três atores do grande escalão contracenando, de modo que o calendário de filmagem coincida com os intervalos entre seus projetos maiores e mais importantes.

Resultado: Noite de Ano Novo, um filme no qual 90% do elenco atua no mais absoluto piloto automático dividindo espaço com propagandas bandeirosas e guiado por roteiro e direção dignos de um especial de fim de ano voltado para televisão. Ainda mais episódico que Idas e Vindas do Amor (há até intevalinhos idiotas entre algumas cenas, como aquele em que uma criança perdida na Times Square torna-se algo grosseiramente engraçadinho), o roteiro de Fugate acompanha pequenos casos de pessoas às vésperas da chegada de 2012 e aqui, diferentemente do longa anterior, não parece sequer preocupado em convergir as histórias ou relacioná-las. Quando o faz, o paralelo soa forçado (o que mudaria se os personagens de Zac Efron e Sarah Jessica Parker não fossem irmãos?) ou usa as surpresas (reviravolta seria uma palavra muito forte) geradas pelas convergências como um truque para convencer os espectadores desatentos que envolver-se emocionalmente com aqueles indivíduos foi uma experiência compensadora simplesmente por descobrir que Fulana é filha de Ciclano, enquanto, na verdade, o mistério se dava muito mais em função da enorme quantidade de possíveis associações entre personagens do que da qualidade da construção de suas trajetórias ou de boas relações de pista e recompensa - nada que chegue sequer aos pés dos destinos dos personagens de Julia Roberts e Bradley Cooper após desembarcarem de um avião em Idas e Vindas do Amor.

Para elucidar a questão, tomemos como exemplo Sam, personagem vivido por Josh Duhamel, que anseia chegar a Nova York antes da virada do ano para reencontrar uma mulher que conhecera no reveillon anterior. De todas as personagens mulheres, apenas duas alegam ter um encontro com um homem à meia-noite. Dessa forma, somos induzidos a pensar que alguma delas é o affair de Sam mas, quando ambas são direcionadas para desfechos cebola-nos-olhos, o caso, que a esta altura já ganhara mais importância que merecia, acaba encerrado de forma terrivelmente tola e enganosa, se considerarmos que a tal mulher já havia explicitado sua intenção de permanecer em casa naquela noite (sua mudança de atitude é resumida pela substituição de calçados cafonas por sapatos dignos de Carrie Bradshaw - e tudo que tenho a dizer sobre isso é... pfff!) ou ainda se pensarmos o quão absurdo é afeiçoar-se por uma pessoa e marcar um reencontro para um ano depois, simplesmente pelo lirismo da ideia (ou adequação ao roteiro).

Ainda por cima, a opção de criar arcos dramáticos simples e curtos para os personagens acaba tornando as historinhas não só terrivelmente mal desenvolvidas, como também mais previsíveis que o necessário. Se a única tarefa de Claire (Swank) parece ser garantir o perfeito funcionamento do tradicional globo de luzes da Times Square, é difícil supor que algo dará errado? Se um homem e uma mulher apáticos entram juntos em um elevador e nada parece acontecer, os acontecimentos seguintes são realmente inesperados? Se todos os amigos da adolescente Hailey (Breslin) passarão a virada do ano na Times Square, mas sua mãe superprotetora não autoriza que os acompanhe, o que deverá acontecer? Se duas gestantes disputam qual bebê nascerá primeiro e as obstetras afirmam que nenhum dos partos está para acontecer, a subtrama estará, portanto, encerrada? Por fim, é lamentável que um filme sobre ano novo, exalando positivismo e boas intenções, confira maior importância às festas em si (acompanhamos desde pessoas responsáveis pela organização dos eventos até outras se sujeitando a tarefas desgostosas para conseguir convites VIP) do que à renovação de esperanças da virada do ano - e temendo não ter deixado claro esse pensamento mesquinho durante a narrativa, o longa trata de ratificá-lo na narração em off que encerra o filme. Minto, isso não encerra o filme! Quando tudo parece acabado, temos ainda erros de gravação que deixariam Renato Aragão orgulhoso, já que a grande maioria deles é encenada e eleva a necessidade latente de divertir o espectador após entediá-lo por quase duas horas a um nível completamente novo (ok, o estereótipo latino interpretado por Sofia Vergara consegue divertir durante o filme. Mas só!).

Aproximando-se de algo mais interessante ao encarar o drama de uma mulher solitária, insegura e rejeitada, vivida com talento por uma Michelle Pfeiffer desprovida de vaidade, Noite de Ano Novo prova que é preciso muito feijão com arroz para transformar uma reunião de grande atores em algo tão sensacional quanto Simplesmente Amor. Muitos tentaram, nenhum conseguiu - e só Garry Marshall já está falhando pela segunda vez. Quem sabe se os produtores experimentassem um outro gênero, no qual as rápidas participações dos grandes atores fossem justificadas por suas próprias convenções...

Taí. Já estou no aguardo de Dia de Finados. Dirigido por Wes Craven, por que não?