28 de setembro de 2011

Crítica | Premonição 5

por Eduardo Monteiro

Final Destination 5, EUA, 2011 | Duração: 1h32 | Lançado no Brasil em 23 de Setembro de 2011, nos cinemas | Escrito por Eric Heisserer | Dirigido por Steven Quale | Com Nicholas D'Agosto, Emma Bell, Miles Fisher, Ellen Wroe, Jacqueline MacInnes Wood, P.J. Byrne, Arlen Escarpeta, David Koechner, Courtney B. Vance, Tony Todd, Brent Stait.

Após três bons filmes, a franquia Premonição chegou, em sua quarta edição, próxima do fundo do poço. Vislumbrando os elevados retornos financeiros que a tecnologia 3D poderia resultar, seus realizadores optaram por estabelecer parentesco com a franquia Jogos Mortais e passaram a colocar mortes repulsivas ou até mesmo a elaboração criativa de seus cartazes acima do desenvolvimento de sua trama. Com uma duração reduzida (o casamento perfeito da falta do que dizer com a maravilhosa possibilidade de realizar mais sessões em um mesmo dia e, com isso, faturar mais), o filme se perdia completamente na estupidez e obviedade de suas mortes, explorava de forma rasa a própria proposta e ainda exibia uma ridícula prepotência ao sugerir que sua tecnologia 3D era digna de um realismo sem precedentes (através de uma cena em que alguns personagens assistiam a um filme de ação em 3D e a explosão vista na película fictícia coincidia com outra ocorrida atrás da tela do cinema em que os personagens estavam), enquanto o baixo investimento em efeitos especiais e a insistência de jogar objetos na direção do espectador apontavam justamente para a direção oposta. Por tudo isso, é sintomático que nem o valor salgado do ingresso devido ao 3D tenha sido suficiente para elevar significativamente a arrecadação da produção - e devo confessar que fiquei temeroso quando uma nova continuação foi anunciada, parecendo disposta a repetir os mesmos erros do longa anterior e ainda apropriar-se de mais características do primo Jogos Mortais: os lançamentos muito próximos (quase tendendo a anuais) e a mania de promover assistentes de produção ao cargo de diretor.

Lamento que, em partes, meus temores tenham se confirmado mas, por outro lado, é positivo que ao menos aqui haja esforços claros de se fazer algo um pouco melhor. Dirigido por Steven Quale (responsável pela direção de segunda unidade e coordenação de projetos especiais dos últimos filmes de James Cameron), o filme acompanha o princípio do translado de um grupo de colegas de trabalho rumo a um retiro de integração sob ordens da empresa. Porém, a viagem logo é interrompida quando Sam Lawton (D'Agosto) prevê um grave acidente em uma ponte que tiraria a vida de grande parte dos indivíduos ali presentes no momento. Mas, assim como nos filmes anteriores, o protagonista consegue evitar a morte de um pequeno grupo de pessoas que, por terem tentado enganar a senhora com capuz preto e foice afiada, acabam perecendo de formas bizarras pouco tempo depois do fatídico dia.

Iniciado referenciando mortes dos longas anteriores (assim como feito no quarto filme) enquanto tenta compensar o investimento daquele espectador que leu apenas o "3D" do cartaz através de extensos créditos inicias dominados por cacos de vidro voando em todas as direções, Premonição 5 é um filme que já nasce engessado pela estrutura robusta e limitada da franquia - e não é de se espantar que os realizadores não tenham buscado alterá-la, uma vez que a última tentativa realmente notável e significativa (ocorrida no segundo filme) promoveu mudanças que alternavam entre o intrigante e o confuso. Assim, no que diz respeito à lógica que rege a série de definhamentos, o filme segue praticamente a mesma linha que os anteriores (o que torna incômodo, por exemplo, o alarde em torno da descoberta da ordem lógica das mortes, algo já bem consolidado na "mitologia" da série), tendo como grande diferencial a inserção cronológica da trama em relação aos demais filmes da franquia (algo apresentado estrategicamente no desfecho para evitar a impressão geral de que o que vimos foi "mais do mesmo").

Porém, ainda que acerte por não partir direto para o grande massacre premonitório, o longa perde a chance de criar um clima de inquietação desde o princípio e aposta em uma apresentação tradicional e tranquila dos personagens através da interação entre eles, sem perceber que as tentativas de aprofundar em suas personalidades ou em seus conflitos são absolutamente tolas. O desabamento da ponte, no entanto, revela-se um ponto alto do filme: ainda que cause inevitável incredulidade em qualquer indivíduo envolvido com construção civil (como o meu caso), a sequência é inegavelmente bem realizada, desde os bons efeitos especiais até o adequado mise en scène (ok, a garota que tenta se salvar correndo na direção do desastre é imperdoável, mas é um caso isolado). O grande acerto, porém, fica por conta da decisão de não apelar exclusivamente para mortes esdrúxulas apenas visando uma oportunidade de jorrar mais litros de sangue digital, optando ao invés disso por criar óbitos razoavelmente plausíveis dentro daquele contexto e manter a coerência da cena (lembrem-se como o acidente de Premonição 4 parece uma grande piada). Por outro lado, um equívoco desnecessário fica aparente e joga para longe a concentração do espectador quando fica óbvio que a sequência premonitória dura muito mais tempo do que a ruína de fato da ponte, que ocorre apenas em segundos.

Já no que diz respeito às mortes que irão preencher o restante do filme, os resultados são variados. Se por um lado a sequência que acompanha um treino de ginástica olímpica é a mais bem construída e remete aos bons tempos da franquia, por outro é difícil engolir que uma pessoa consiga ter tantas fraturas com uma queda de menos de três metros de altura ou que uma modesta correia consiga acelerar com tamanha facilidade uma pesada e inacreditavelmente grande chave fixa. Ainda nesse aspecto, por mais que não sejam tão desagradáveis quanto as do filme anterior, não há como ignorar que as mortes vistas aqui são bastante gráficas e voltam a investir de forma pesada e relativamente gratuita em imagens repulsivas e fluidos escandalosos, dificilmente conseguindo definir-se entre cômicas ou repugnantes - e não consigo pensar em outro motivo para exibir um detalhado plano de um personagem se dando ao trabalho de retirar uma única agulha dentre dezenas encravadas em sua pele senão tentar agradar a parcela doentia e masoquista do público, órfãos de Jogos Mortais. Para completar, é lamentável que desta vez os planos arquitetados pela Dona Morte pequem em criatividade, algo evidente quando notamos que grande parte deles são dependentes de convenientes curtos-circuitos e onipresentes parafusos frouxos.

Investindo novamente em um elenco basicamente desconhecido, jovem, bonito e diversificado (nerds e negros também estão incluídos), Premonição 5 naturalmente se apoia em estereótipos, o que não é exatamente condenável (especialmente nesse tipo de produção, em que os personagens são eliminados na mesma velocidade que são construídos), mas que também não sustenta, por exemplo, a mudança de postura absurda do personagem de Miles Fisher (que disputa com Colin Egglesfield de O Noivo da Minha Melhor Amiga o posto de sósia oficial de Tom Cruise) no clímax do filme, quando desenvolve um ridículo raciocínio sobre "não matar desconhecidos" e assume uma nova função na narrativa. Já o destaque negativo fica por conta do retorno do médico legista Bludworth (Todd), presente nos dois primeiros filmes, que aqui é lançado no meio da trama como uma presença incômoda e misteriosa mas, por fim, é usado apenas para esclarecer ao novo grupo de personagens (e aos espectadores novatos) os conceitos da franquia, evitando que estes tenham que ser descobertos gradualmente através de outros tediosos meios. Por fim, enquanto o restante do elenco cumpre sem grandes destaques seus papéis, Nicholas D'Agosto exibe carisma suficiente para assumir o posto de protagonista, saindo-se bem, por exemplo, na cena em que circula pela cozinha de um restaurante e enxerga diversos eventos comuns como potencialmente perigosos, num exemplo único da abordagem que citei elogiosamente em meu texto sobre Premonição 3.

Contando com um bom confronto em seu terceiro ato (do ponto de vista da realização, não das motivações envolvidas) e repleto de referências aos demais longas da série e boas brincadeiras que antecipam certos acontecimentos (como a pulseira da sorte arrebentada ou o ursinho de pelúcia que perde um olho), Premonição 5 é encerrado com, novamente e para a surpresa de todos, repetições aleatórias das mortes dos filmes anteriores incluídas apenas para jogar sangue, fagulhas e resíduos na direção do espectador. Somando tamanha demonstração de insegurança em relação ao próprio material a todo o restante já abordado, o longa é uma prova inquestionável de que, sem uma boa sacudida, a franquia estará condenada a uma sobrevida tão incerta quando as de seus personagens. E querendo ou não, chegará um dia em que ela mesma não conseguirá escapar do próprio destino.