Crítica | Looking: The Movie Crítica | Hush: A Morte Ouve Crítica | Mogli: O Menino Lobo


4 de agosto de 2016

Curta | Lights Out


O terror é, certamente, um dos gêneros que possui maior afinidade com a duração e a linguagem de curtas. O sueco Lights Out é um ótimo exemplo disso e, em seus menos de três minutos, estabelece um objetivo bem claro, que cumpre com bastante destreza: apresentar o conceito de sua assombração e fazê-la atacar os nervos da audiência - sem a necessidade de buscar explicações elaboradas sobre o passado, a origem ou as motivações deste algoz, como normalmente ocorre em longas (e provavelmente ocorrerá na adaptação americana Quando as Luzes se Apagam.

Apresentando uma situação rotineira, o curta potencializa o impacto do horror ao utilizar uma atriz comum, em um cenário idem e se comportando como a maioria de nós o faria numa situação como aquela, indo da incredulidade natural ao pânico inevitável em questão de segundos. Além disso, o cineasta David Sandberg faz um uso calculado e certeiro de elementos como trilha, ruídos e silêncios da edição sonora, enquadramentos, montagem e efeitos especiais na construção do medo, prejudicando o sono de todos aqueles que decidirem ver (ou lembrar) de Lights Out a caminho da cama.

Lights Out, Suécia, 2013 | Escrito por David Sandberg | Dirigido por David Sandberg | Com Lotta Losten.

1 de agosto de 2016

Crítica | Looking: The Movie

Jonathan Groff, Murray Bartlett e Frankie J. Alvarez em LOOKING: THE MOVIE

★★★★

Looking: The Movie, EUA, 2016 | Duração: 1h24m35s | Lançado no Brasil em 30 de julho de 2016, na HBO | Baseado na série criada por Michael Lannan. Escrito por Andrew Haigh & Michael Lannan | Dirigido por Andrew Haigh | Com Jonathan Groff, Frankie J. Alvarez, Murray Bartlett, Lauren Weedman, Raúl Castillo, Russell Tovey, Daniel Franzese, O-T Fagbenle, Bashir Salahuddin, Chris Perfetti, Derek Phillips, Michael Rosen.

Pôster/capa/cartaz de LOOKING: THE MOVIE
Embora ainda estejam longe de definir um cenário ideal, a discriminação e a repressão históricas sofridas pela comunidade LGBT vêm regredindo expressivamente ao longo das últimas décadas, permitindo, por exemplo, que a presença de figuras queer na indústria cultural se torne cada vez mais comum e, sobretudo, mais naturalizada. Entretanto, por maiores que sejam esses avanços, ainda persiste uma enorme carência de produções culturais que foquem e mergulhem em questões que, embora relacionáveis e universais em sua essência, são próprias de uma comunidade ainda mal compreendida.

E é com um pesar incontornável e a sensibilidade habitual que Patrick, Agustín, Dom, Doris e Kevin se despedem do público em Looking: The Movie, telefilme que arremata o arco da série homônima precocemente cancelada pela HBO no último ano por falta de audiência e que, ao longo de apenas 18 episódios de meia hora de duração, lançou um olhar acurado sobre os anseios, expectativas, frustrações e decepções do homem gay contemporâneo em questões relacionadas a amizade, relacionamentos, sexo, saúde, carreira e família.

No filme, escrito pelo diretor e produtor Andrew Haigh (Weekend) ao lado do criador da série Michael Lannan, descobrimos que o designer de videogames Patrick (Jonathan Groff), frustrado com os rumos que sua vida vinha tomando, mudou-se para Denver em busca de algum tipo de recomeço catártico. De volta a São Francisco para o casamento de Agustín (Frankie J. Alvarez) e Eddie (Daniel Franzese), o rapaz reencontra figuras de seu passado (recente) e acaba se dando conta de que a decisão de abandonar a cidade tratava-se, na realidade, de uma estratégia para fugir dos conflitos emocionais mal resolvidos que ainda o afligiam, em vez de enfrentá-los de frente.

Jonathan Groff e Russell Tovey em LOOKING: THE MOVIE

Levemente prejudicado pela carga de diálogos expositivos, que visam tanto dar alguma orientação ao público que não acompanhou a série quanto preencher a lacuna entre a segunda temporada e o filme, Looking apresenta versões mais maduras de seus personagens, mas concentra as maiores atenções no arco do protagonista: visivelmente empenhado em reprimir parte de suas emoções, Patrick surge como um sujeito menos impulsivo e autodestrutivo que, mais do que nunca, parece disposto a compreender o lado de seus interlocutores e a reconhecer seus próprios e múltiplos erros em assuntos não resolvidos ao longo das temporadas.

Aliás, a excelência da construção dos personagens é um dos grandes méritos de Looking, fazendo com que a narrativa seja amplamente enriquecida pela simples interação entre suas figuras imperfeitas e erráticas - o que fica evidente, por exemplo, na eficácia da sequência em que Patrick e seu ex-patrão e ex-amante Kevin (Russell Tovey) acertam suas pendências pessoais, quando o roteiro não se rende à tentação de soluções fáceis, frágeis e piegas. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da passagem próxima ao desfecho em que o protagonista e sua antiga paixão, Richie (Raúl Castillo), debatem sobre o futuro, numa tentativa atrapalhada e infeliz de oferecer ao público uma perspectiva palpável, mas não muito concreta sobre o destino de ambos, que se estabelece como uma das maiores decepções do longa.

Como era de se esperar, Looking: The Movie ainda merece aplausos por inserir na narrativa breves reflexões sobre temas que dialogam diretamente com o público gay e que ainda não haviam sido abordados na série - a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou como se assumir precoce ou tardiamente pode influenciar de maneiras distintas a formação da personalidade de um indivíduo são alguns exemplos. Por fim, os realizadores mais uma vez chamam a atenção pela veracidade e visceralidade das relações sexuais vistas em tela - exatamente o que deveríamos esperar de uma cena pensada, escrita, coreografada, dirigida e protagonizada por homens homossexuais.

Celebrando com eficiência ímpar o valor de amizades legítimas e merecendo aplausos por toda a discussão em torno da inexistência de respostas fáceis para questões sentimentais complexas e da importância de, nesses casos, ter culhões para assumir riscos em busca da felicidade (com destaque para a estranhamente eficiente cena em que Patrick e Dom exploram com espontaneidade, naturalidade e sem neuras a barreira que separa a amizade da sexualidade), Looking: The Movie é um encerramento à altura de uma série extremamente subestimada que, além de saudades e melancolia, deixará uma legião de órfãos de uma representatividade que não se vê todo dia por aí.

Jonathan Groff e Raúl Castillo em LOOKING: THE MOVIE

1 de maio de 2016

Crítica | Hush: A Morte Ouve

Kate Siegel em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

★★★

Hush, EUA, 2016 | Duração: 1h21m43s | Lançado no Brasil em 8 de abril de 2016, na Netflix | Roteiro de Mike Flanagan & Kate Siegel | Dirigido por Mike Flanagan | Com Kate Siegel, John Gallagher Jr., Samantha Sloyan e Michael Trucco.

Pôster/capa/cartaz de HUSH: A MORTE OUVE (Hush)
Em mais de uma ocasião, usei este espaço para comentar (e às vezes lamentar) o desgaste que o terror vem sofrendo ao longo dos anos. Amplamente dependente de suas convenções, o gênero segue prolífero na cena independente enquanto suplica com cada vez maior intensidade por realizadores arrojados e premissas que não só justifiquem a reutilização da cartilha de convenções, mas também que façam bom uso destas.

Hush - A Morte Ouve seria apenas mais um terror ordinário caso não introduzisse um elemento particular que dá abertura à abordagem singular de uma premissa pra lá de batida. Escrito pelo diretor Mike Flanagan e pela atriz principal Kate Siegel, o filme gira em torno de uma escritora que, isolada em uma casa remota com janelas amplas no meio de uma floresta, torna-se alvo de um psicopata mascarado com intenções homicidas e motivações incertas. O que diferencia Maddie (Siegel) das incontáveis figuras que já protagonizaram a mesmíssima história nas telonas anteriormente, porém, é que a mulher não conta com um dos sentidos: a audição. Assim, a moça se vê obrigada a redobrar a atenção e utilizar todas as ferramentas que existirem a seu favor para sair daquela situação com vida.

Embora enriqueça a narrativa, esse diferencial obviamente não impede que outros erros sejam cometidos e comprometam suavemente o projeto como um todo. Como de costume, o roteiro depende da imprudência e falta de cautela tanto da mocinha quanto do vilão para transformar um embate trivial em um longa-metragem de oitenta minutos - e os roteiristas ao menos são honestos ao assumir logo a estupidez de seu antagonista, que promete torturar psicologicamente a protagonista e só invadir a casa quando a mulher estiver derrotada pelo abatimento, permitindo, naturalmente, que Maddie elabore uma porção de pequenos planos para tentar ludibriar o psicopata vivido por John Gallagher Jr.

John Gallagher Jr. em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

O ator, aliás, revela-se uma escolha infeliz para o papel: habituado a dar vida a figuras inseguras ou carismáticas, Gallagher Jr. trabalha a psicopatia do homem através de caretas convencionais e jamais transforma o sujeito em uma figura mais assustadora do que o indivíduo mascarado apresentado no primeiro ato do longa. Kate Siegel, por outro lado, faz da protagonista um ser muitíssimo mais crível, que apanha para operar uma balestra e sofre de dor quando ferida enquanto evolui do incontestável e incontornável pavor inicial ao surto de coragem que a acomete na reta final do longa.

Porém, mesmo com todos os problemas, Hush é beneficiado pelo talento de Mike Flanagan, que já havia chamado a atenção no interessante O Espelho e, neste novo trabalho, faz um excelente uso das ferramentas narrativas (trilha, montagem, fotografia, edição de som) na construção da tensão do longa - especialmente ao colocar os espectadores, ouvintes em sua expressiva maioria (taí mais um filme que não funcionaria tão bem para deficientes auditivos), em posição especialmente privilegiada, compartilhada pelo vilão.

Lançado diretamente na internet, Hush - A Morte Ouve é uma produção esforçada cujos poucos recursos recaem nas mãos de profissionais competentes e promissores sobre os quais, se tivermos sorte, ouviremos bastante nos próximos anos - com o perdão pelo trocadilho infame.

John Gallagher Jr. em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

24 de abril de 2016

Crítica | Mogli: O Menino Lobo

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

★★★

The Jungle Book, EUA, 2016 | Duração: 1h45 | Lançado no Brasil em 14 de abril de 2016, nos cinemas | Baseado nos livros de Rudyard Kipling. Roteiro de Justin Marks | Dirigido por Jon Favreau | Com Neel Sethi e as vozes de Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong'o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling.

Pôster/capa/cartaz nacional de MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)
Não fosse a memória emotiva do público em relação à animação clássica homônima, Mogli: O Menino Lobo teria pouquíssimo apelo e muito provavelmente fracassaria nas bilheterias internacionais - isso, claro, se algum estúdio tivesse tido a coragem de dar sinal verde para a produção. Diferentemente do ótimo e recente Cinderela, cujos arquétipos contam com certa atemporalidade e ainda encontram ressonância nos dias atuais, esta refilmagem da produção cinquentenária dos estúdios Disney até consegue se adequar com certa eficiência à linguagem e à tecnologia contemporâneas, mas fica refém da frouxidão e do caráter episódico da trama.

Escrito pelo pouco experiente Justin Marks com base nos livros de Rudyard Kipling e tomando sempre a animação da década de 60 como parâmetro, o filme gira em torno de um garoto humano (Neel Sethi) que, encontrado pela pantera Bagheera (Ben Kingsley) e criado por lobos, tem a selva como seu verdadeiro lar. A presença de Mogli naquele ecossistema, entretanto, não agrada a todos: vítima de ataques de humanos no passado, o perigoso tigre Shere Khan (Idris Elba) anuncia durante uma trégua entre os animais sua intenção de matar o garoto, evitando que este se torne um homem e coloque em risco a fauna da região. Assim, o jovem rapaz acaba sendo obrigado a evadir da área rumo à terra dos homens, deparando-se no caminho com uma série de animais com as mais diversas intenções.

Recorrendo sempre a soluções convenientes para as enrascadas em que Mogli se mete, o roteiro sofre da já mencionada dificuldade de conectar os diversos segmentos da jornada do garoto com a fluidez desejada - e o problema só não é maior graças à decisão acertada de incorporar apenas duas canções (The Bare Necessities e I Wanna Be Like You) da animação clássica à narrativa (há uma terceira, Trust in Me, durante os créditos finais). Além disso, as injeções de humor funcionam muito bem na maior parte do tempo, amenizando as deficiências do roteiro e surgindo como um adicional especial para o público adulto, notório alvo da nostalgia da produção - e não é à toa que, em sua segunda semana em exibição no Brasil, o filme tenha tido sessões dubladas substituídas por legendadas em diversas praças do país.

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

Sensivelmente mais assustador que o antecessor, Mogli: O Menino Lobo conta com um elenco de vozes estelar que nem sempre satisfaz as necessidades de seus personagens. Em um papel anteriormente assumido por homens em sua maioria, Scarlett Johansson confere à serpente Kaa o tom ao mesmo tempo enigmático e traiçoeiro demandado pela personagem - mas o resultado, seja pelo design do animal ou por alguma outra razão, não é tão satisfatório quanto o esperado. Por outro lado, Bill Murray mostra-se uma escolha divertida, competente e compatível com o preguiçoso, malandro e fiel urso Baloo, enquanto Christopher Walken confere ao primata Rei Louie um ar mafioso absolutamente adequado ao personagem, embora comprometa o número musical estrelado pelo vilão com seu canto medíocre.

Tecnicamente, o filme tem resultados coerentes com o investimento e com a escolha de um diretor como Jon Favreau, habituado ao uso intensivo de efeitos especiais. Toda a ampla variedade de espécies que compõem a fauna daquele ecossistema apresenta um visual extremamente convincente e se movimenta com inquestionáveis e irrepreensíveis complexidade e fluidez. Além disso, o design de produção consegue desenvolver cenários adequados às distintas fases da narrativa, como a sombria porção da floresta que sedia o encontro com Kaa contraposta às floridas, iluminadas e atraentes redondezas que servem de moradia para Baloo. Infelizmente, a onipresença de criações digitais confere uma artificialidade incontornável e prejudicial à estética da produção: em momento algum acreditei que o talentoso e esforçado Neel Sethi estivesse na selva que ambienta a trama - e o surpreendentemente péssimo 3D só piora a situação (repare o desastroso resultado de uma cena envolvendo chuva, por exemplo).

Arrematado com créditos finais que chamam a atenção pela criatividade e bom humor, Mogli: O Menino Lobo aposta na nostalgia do público e na sofisticação da tecnologia para criar a demanda por um remake, algo que por si só, não existiria - e embora o resultado não desperte desgostos particularmente severas, tampouco inspira maiores elogios.

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

17 de abril de 2016

Crítica | Rua Cloverfield, 10

Mary Elizabeth Winstead e John Goodman em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

★★★★

10 Cloverfield Lane, EUA, 2016 | Duração: 1h43 | Lançado no Brasil em 7 de abril de 2016, nos cinemas | História de Josh Campbell & Matthew Stuecken. Roteiro de Josh Campbell & Matthew Stuecken e Damien Chazelle | Dirigido por Dan Trachtenberg | Com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr.

Pôster/cartaz/capa nacional de RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)
Do topo do meu privilégio masculino, por muito tempo rejeitei a ideia da corrente feminista que defende que "todo homem é um estuprador em potencial". O discurso só passou a fazer sentido para mim quando fiz a leitura correta e entendi que, em situações criticas, a figura masculina, por si só, pode representar uma ameaça palpável para mulheres e despertar nelas um instinto de autopreservação; em outras palavras, é perfeitamente compreensível que uma mulher adote uma postura defensiva, por exemplo, ao cruzar com um homem desconhecido em uma rua deserta, já que a estabilidade mental do sujeito é uma incógnita e agressões misóginas são muitíssimo mais comuns do que gostaríamos.

Entretanto, mesmo já tendo ajustado minha perspectiva em relação ao assunto, continuo sendo e sempre serei um privilegiado indivíduo do sexo masculino - e por maiores que sejam a compaixão e a empatia que nutro pela causa feminista, elas jamais me trarão uma compreensão satisfatória do que é estar no papel oprimido em uma situação dessa natureza. Mencionei tudo isso para destacar que Rua Cloverfield, 10 é, sem dúvidas, um thriller aterrador para todas as audiências, mas deve representar uma experiência ainda mais tensa e penosa para o público feminino.

No filme, escrito por Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle, a aspirante a estilista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre um acidente automobilístico e acorda horas depois acorrentada ao encanamento de um calabouço. Já suficientemente apavorada, a mulher descobre que o cativeiro é mantido por Howard (John Goodman), um homem mais velho, corpulento e ligeiramente sombrio - e quando ela reivindica sua liberdade e implora que sua integridade seja preservada, o sujeito anuncia misteriosamente que o objetivo daquele cárcere é "mantê-la viva".

John Goodman, Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr. em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

A ambiguidade do personagem de John Goodman é a espinha dorsal do suspense do filme, trabalho esse que o ator veterano desempenha com imensa competência: embora consiga tranquilizar gradualmente a desconfiada Michelle conferindo-lhe certas liberdades, apresentando o abrigo subterrâneo que ambos e o alvoroçado Emmett (John Gallagher Jr.) compartilham e dividindo com ela sua teoria e evidências sobre o suposto ataque químico que assolou a superfície terrestre, o homem exibe uma série de comportamentos ambíguos que, vistos sob um prisma mais pessimista, são perfeitamente dignos de desconfiança - e confesso que, na maior parte do tempo, fui mais otimista e apostei na possibilidade de Howard ser um sujeito com boas intenções.

(Atenção!: o restante do texto contém spoilers)

Todavia, tratava-se de um posicionamento involuntariamente tendencioso (e um pouco machista, preciso admitir) de minha parte e teria sido um imenso erro e um tremendo desserviço caso os roteiristas tivessem seguido por essa vertente: caso o personagem de Goodman tivesse, de fato, boa índole, a postura defensiva de Michelle acabaria soando inoportunamente como equivocada histeria feminina. Assim, quando Howard assassina abruptamente Emmett na virada do segundo para o terceiro ato e ressurge, na cena seguinte, de barba feita, qualquer ambiguidade cai por terra e todas as atitudes suspeitas do homem ganham um contorno mais definido: Howard não é só um homem instável, perigoso e paranoico, mas um legítimo predador sexual, tão ou mais assustador que os inimigos que supostamente aguardam a protagonista do lado de fora do bunker.

Dividindo características remotas com o primo Cloverfield - Monstro, de 2008, Rua Cloverfield, 10 prova que não são necessários grandes recursos para a produção de um suspense de ficção científica eficiente e tematicamente relevante - e não é à toa que a parte mais ordinária e menos interessante do longa é justamente aquela transcorrida no exterior do abrigo, culminando em um desfecho substancialmente menos extasiante que o esperado. Um mero pecadilho para uma junção de esforços artísticos tão bem sucedida.

John Gallagher Jr., Mary Elizabeth Winstead e John Goodman em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

5 de março de 2016

Snervous Tyler Oakley

Tyler Oakley em SNERVOUS TYLER OAKLEY

Gravar vídeos conversando com uma câmera e postar na internet pode ser uma atividade altamente lucrativa nos dias atuais. Não há, entretanto, um passo-a-passo ou uma receita garantida para alcançar tal status: todos os dias, centenas de jovens devem lançar seus canais no YouTube na expectativa vã de alcançar a popularidade de sensações internacionais como Tyler Oakley, Miranda Sings, Shane Dawson e Connor Franta ou dos brasileiros Kéfera Buchmann, PC Siqueira, Jout Jout e Luba, cada qual alçado à fama on-line por circunstâncias particulares e difíceis de serem desvendadas, discernidas e enumeradas.

Trata-se de um nicho que, especialmente nos últimos meses, tem expandido em taxas exponenciais, conferindo fama apoteótica a anônimos em um fenômeno curioso e emblemático que merecia ser estudado. Infelizmente, o documentário Snervous Tyler Oakley não faz qualquer esforço de explorar as circunstâncias que transformaram o jovem de 26 anos em um dos mais populares youtubers da rede, surgindo como um documentário raso que, como bem apontou o crítico americano Noel Murray, soa mais como "parte do fenômeno, não uma examinação deste".

Murray é preciso em sua colocação: celebrados mais por seus carismas e pela forma simuladamente íntima como interagem com o público do que por habilidades artísticas ou talentos específicos, os youtubers têm aproveitado o fanatismo de uma base de fãs altamente suscetível para arrancar alguns trocados com linhas próprias de produtos, como livros e roupas. Dessa forma, Oakley é visto em Snervous rodando o mundo com um espetáculo que se resume ao protagonista sendo ele mesmo e fazendo estripulias diante de uma plateia homogeneamente histérica em um palco que reproduz o cenário de seus vídeos - e a inabilidade de incutir relevância no material que acompanha Tyler fora dos palcos prova que tanto o espetáculo quanto o documentário são, de fato, meros subprodutos com o selo Tyler Oakley.

Muitíssimo menos sutil do que obras como Katy Perry: Part of Me em suas tentativas de transformar o protagonista em uma figura humana, com falhas, defeitos e afetado pelos infortúnios da fama, o filme possui uma montagem grosseira (os cortes bruscos para telas pretas com textos explicativos parecem evocar uma importância incompatível com o conteúdo) e não consegue sequer evidenciar, por exemplo, a afinidade de Oakley, homossexual assumido, com a causa LGBT, limitando-se a relatar a experiência pessoal do rapaz e os conflitos familiares gerados pela questão.

Incapaz de estabelecer um tema ou um assunto central, Snervous Tyler Oakley é um documentário que não diz muito sobre uma figura que não tem muito a dizer - e se os vídeos de Oakley já estão se tornando demasiadamente enlatados e afetados pela bajulação excessiva da base de fãs, definitivamente não será um esforço encenado como esse que irá melhorar a situação.

★★

Snervous Tyler Oakley, EUA, 2015 | Duração: 1h22m54s | Lançado no Brasil em 15 de fevereiro de 2016, na Netflix | Dirigido por Amy Rice | Com Tyler Oakley e Korey Kuhl.

Korey Kuhl e Tyler Oakley em SNERVOUS TYLER OAKLEY

12 de janeiro de 2016

Crítica | O Bom Dinossauro

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

★★

The Good Dinosaur, EUA, 2015 | Duração: 1h33 | Lançado no Brasil em 7 de janeiro de 2016, nos cinemas | Conceito original e desenvolvimento de Bob Peterson. História de Peter Sohn & Erik Benson & Meg LeFauve & Kelsey Mann & Bob Peterson, Roteiro de Meg LeFauve | Dirigido por Peter Sohn | Com as vozes de Raymond Ochoa, Jack Bright, Jeffrey Wright, Frances McDormand, Marcus Scribner, Steve Zahn, Anna Paquin, Sam Elliot e John Ratzenberger.

Pôster/capa/cartaz nacional de O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)
Em algum momento ao longo dos 10 primeiros minutos de O Bom Dinossauro, fui repentinamente acometido pela certeza de que o pai do protagonista morreria a qualquer instante. Ainda desconheço os motivos exatos que me conduziram a tal conclusão, mas tenho alguns palpites: antes de mais nada, o filme introduz o protagonista como um dinossauro estabanado e covarde que, inserido em um núcleo familiar que estimula a competição entre os irmãos (cada qual deve desempenhar com excelência tarefas específicas para "deixar sua marca" no silo da família), estabelece uma relação conturbada com seu patriarca, por quem nutre uma idolatria e uma admiração jamais retribuídas. Além disso, a introdução da narrativa é extremamente esquemática e possui um teor educativo que beira o vexaminoso, de modo que, somando ao que foi dito anteriormente, a tal tragédia traz à tona todo o dramalhão e os típicos conflitos emocionais pretendido por esse tipo de trama, conduzindo o protagonista por uma jornada óbvia e previsível de aprendizado, autoconhecimento e crescimento pessoal.

Infelizmente, eu estava certo. Escrito por Meg LeFauve (do brilhante Divertida Mente) a partir de uma história bolada por Bob Peterson (Up - Altas Aventuras) e desenvolvida por outros quatro profissionais (incluindo o diretor Peter Sohn), o filme se passa alguns milhões de anos após a não-extinção dos dinossauros e gira em torno de Arlo (Raymond Ochoa), a ovelha negra de uma família dos répteis mesozoicos que, após testemunhar o pai perdendo a vida para salvá-lo de uma grande enxurrada, vai atrás do suposto culpado - Spot (Jack Bright), um pequeno e selvagem humano - em busca de vingança, até descobrir que o garoto é, na verdade, dócil e amigável. Assim, Arlo e Spot desenvolvem um companheirismo repleto de cumplicidade enquanto tentam retornar ao lar do protagonista, enfrentando no caminho a hostilidade de predadores e da vida selvagem.

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

Sem apresentar uma ideia original, surpreendente ou ousada sequer ao longo de seus mais de noventa minutos, O Bom Dinossauro é comprometido por uma narrativa terrivelmente frouxa, amarrada por lições óbvias e baratas que poderiam perfeitamente ser encontradas em um livro didático de pré-escola de segunda linha. Com uma falta de ambição que lembra os estúdios Blue Sky e Dreamworks em seus momentos mais embaraçosos, o filme recicla uma infinidade de ideias já abordadas anteriormente pela produção do gênero e mancha o currículo majoritariamente admirável da Pixar especialmente no quesito emotividade - e embora haja algum peso em uma ou outra cena, a insipidez e a falta de empatia generalizada colocam esses momentos hipoteticamente mais tocantes a anos-luz de distância dos rios de lágrimas já derramados graças aos brinquedos de Andy, às emoções de Riley ou à vida de casados dos Fredricksen.

Como se não bastasse, O Bom Dinossauro não merece elogios nem mesmo em termos técnicos: a trilha não possui qualquer tema marcante, o design dos cenários é até competente, mas não chama muita atenção, ao passo que a estética dos personagens decepciona profundamente, chegando a gerar incômodo: enquanto alguns remetem até mesmo aos traços e proporções grotescos do péssimo O Segredo dos Animais, outros parecem saídos diretamente da interminável e nada marcante galeria de personagens secundários da franquia A Era do Gelo. Para completar, a irregularidade do projeto fica mais do que evidente quando nos damos conta de que a cena mais eficaz da projeção é, também, a mais inadequada e fora de propósito; refiro-me, evidentemente, à passagem em que Arlo e Spot ingerem frutas estragadas com propriedade alucinógenas e embarcam em delírios psicodélicos perturbadores.

Carregando o grandioso selo de um estúdio consagrado pelo charme de seus personagens, pela inventividade técnica e pela imersividade de suas narrativas, O Bom Dinossauro proporciona uma experiência truncada que, a cada nova oportunidade desperdiçada de se reerguer, perde a atenção do espectador ao despertar perplexidade por todos os esforços investidos em um produto irremediavelmente indigesto.

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

24 de junho de 2015

Crítica | Minions

MINIONS

★★

Minions, EUA, 2015 | Duração: 1h31 | Lançado no Brasil em 25 de junho de 2015, nos cinemas | Escrito por Brian Lynch | Dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin | Com as vozes de Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allison Janney, Steve Coogan, Jennifer Saunders, Geoffrey Rush, Steve Carell e Pierre Coffin.

Pôster/capa/cartaz nacional de MINIONS
Sempre que tento entender o inexplicável e estrondoso sucesso do fraco Meu Malvado Favorito e de sua horrorosa continuação, lembro da ocasião em que estive presente em uma sessão de Dredd em que o teaser trailer em 3D do segundo filme foi exibido para uma plateia formada exclusivamente por adultos, cujas reações à peça de divulgação (que foi exaustivamente exibida ao longo de meses nos cinemas) chamaram muito minha atenção: primeiro, a incapacidade dos espectadores de esconder o deslumbramento infantil com a língua-de-sogra que parecia invadir a sala na direção das poltronas e, segundo, a explosão de gargalhadas (adultas, repito e enfatizo) que inundou o ambiente quando um dos minions esmurra e derruba um dos companheiros no desfecho da cena.

Trata-se de um fenômeno, no mínimo, curioso: alívios cômicos (ou sidekicks) por excelência, os seres amarelos unicelulares (?) dotados de um design pouquíssimo elegante e de um humor óbvio e rasteiro (que até funciona em várias ocasiões) caíram como um meteoro na graça do público e se tornaram a maior, senão única razão do sucesso da franquia - e não é à toa que, mesmo sendo personagens secundários, eles estão presentes de forma esmagadora em qualquer material relacionado aos filmes (cartazes, trailers, capa do DVD e do Blu-ray, brinquedos, etc) e nos principais argumentos utilizados pelos defensores das obras. Entretanto, já está mais do que provado que a bagunça inócua e lançadora-de-objetos-na-direção-da-plateia que caracteriza qualquer segmento audiovisual estrelado pelos minions não é capaz de sustentar ou sequer contribuir para uma construção narrativa satisfatória - o que, fatalmente, condena essa ascensão dos coadjuvantes engraçadinhos a protagonistas.

Escrito por Brian Lynch e dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin (este último responsável pelas vozes dos bichinhos), Minions introduz os personagens-título como seres fadados a servir mestres perversos e apresenta suas consecutivas e fracassadas tentativas de colaborar com grandes vilões ao longo da História. Derrotados e desiludidos, os pequeninos decidem se refugiar em uma gélida e remota caverna, onde se organizam em uma comunidade que rapidamente é afligida pelo abatimento oriundo do descumprimento de suas funções naturais. É então que três deles - o destemido líder Kevin, o músico e fã de bananas Stuart e o ingênuo Bob - decidem sair do esconderijo em busca de um vilão digno da servidão daquela tribo. Assim, o trio logo é cativado pela supervilã Scarlett Overkill (Sandra Bullock), que encomenda um grande roubo para testar as habilidades e a lealdade de seus novos capangas.

MINIONS

Apenas alguns tons menos histriônico que os dois Meu Malvado Favorito, este spin-off (ou prequel) volta os holofotes para o que havia de melhor e mais tolerável naqueles filmes sem qualquer propósito artístico ou ambição narrativa. Assim, a frágil trama é inteiramente estruturada como suporte para esquetes dos seres amarelos, que carecem de personalidades compatíveis com a centralidade dos papéis e cujo humor, predominantemente físico, flerta demasiadamente com o pastelão, saturando o espectador com tombos, sopapos e um bocado de histeria. Ainda nesse sentido, os realizadores pecam ao amontoar o filme com referências culturais que, abraçando a ambientação sessentista da trama, parecem apostar mais na vaidade dos espectadores capazes de identificá-las e compreendê-las do que na organicidade com que poderiam se encaixar na narrativa.

Por outro lado, o filme consegue arrancar uma ou outra risada quando explora aquilo que os minions possuem de melhor: a seriedade e o comprometimento nonsense com que assumem personalidades distintas ou se envolvem em atividades diversificadas, como ocorre em algumas passagens musicais, na hilária sequência em que Bob é coroado rei da Inglaterra ou na divertida montagem que exibe a jornada do restante da tribo rumo ao Reino Unido. Infelizmente, os realizadores são incapazes de identificar o potencial dessas investidas e desperdiçam a maior parte do tempo tentando conferir credibilidade à trama - que, por sinal, é repleta de arbitrariedades e inconsistências, característica marcante da franquia.

Preguiçoso a ponto de recorrer frequentemente à narração em off para que a trama seja compreendida (já que a língua própria dos minions mistura de forma imprevisível diversos idiomas humanos e fazer um trabalho genial como o de WALL•E é um desafio grande demais para os realizadores), Minions reflete a cada minuto o esforço inútil de uma equipe que, caso pudesse abandonar o pouco de dignidade que ainda lhe resta e atender às reais demandas do público, transformaria o longa em uma versão estendida da cena que surge após o fim dos créditos - uma bagunça musical, histérica, caótica e sem sentido, com toda a sorte de objetos voando na direção do público e os minions fazendo aquilo que sabem fazer de melhor: ser minions e alojar-se, sorrateiros, na mente dos consumidores. As empresas de brinquedos, guloseimas, material escolar, roupas de cama e as redes de fast food que ostentam os personagens em seus produtos e vitrines agradecem enfaticamente e mandam lembranças.

MINIONS

16 de junho de 2015

Crítica | Divertida Mente

DIVERTIDA MENTE (Inside Out)

★★★★★

Inside Out, EUA, 2015 | Duração: 1h34 | Lançado no Brasil em 18 de junho de 2015, nos cinemas | História de Pete Docter e Josh Cooley. Roteiro de Pete Docter & Meg LeFauve & Josh Cooley | Dirigido por Peter Docter e Ronaldo Del Carmen | Com as vozes de Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan e John Ratzenberger.

Pôster/capa/cartaz nacional de DIVERTIDA MENTE (Inside Out)
"Este filme é dedicado às nossas crianças. Por favor, não cresçam. Nunca.". Posicionada em algum ponto próximo à tradicional lista de production babies - bebês de envolvidos no projeto que nasceram durante a produção - nos créditos finais de Divertida Mente, esta dedicatória atravessou meus olhos ainda marejados ao final da sessão para se estabelecer como o golpe final da sucessão de bordoadas emocionais deferidas pela mais nova animação dos estúdios Pixar, que se aventura em um estudo inusitado sobre o processo de amadurecimento com doses equilibradas de humor, doçura e melancolia.

Escrito por Josh Cooley, Meg LeFauve e pelo diretor Pete Docter, o filme nos transporta para o interior da mente da jovem Riley (Kaitlyn Dias), onde as emoções Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Raiva (Lewis Black), Medo (Bill Hader) e Nojinho (Mindy Kaling) dividem o comando de uma central de operações responsável pelos estímulos e pela criação e armazenamento de memórias da garota. Porém, quando a família de Riley muda de cidade e a menina é exposta a uma série de ambientes e situações inéditos e desafiadores, Alegria e Tristeza são acidentalmente extraídas e afastadas da Sala de Comando e passam a enfrentar uma série de dificuldades para retornar, deixando a jovem sob os cuidados do Raiva, do Medo e da Nojinho.

Abraçando com vigor e sem receios a hipótese mais infantil e fantasiosa sobre o funcionamento do corpo humano - a de que pessoinhas desempenham tarefas específicas dentro de nós -, Divertida Mente lança um olhar lúdico e imaginativo sobre os mecanismos mentais de um indivíduo sujeito a um intenso processo de transformação, em um momento revelador e emblemático da vida. Nesse sentido, a produção acerta ao abraçar a complexidade da mente humana e abrir mão de um rigor lógico na concepção do universo psicológico: essencialmente, todas as leis em vigor naquele cenário são repletas de arbitrariedades - o que não impede, entretanto, que gerem fascinação e possuam alguma coerência própria. Assim, mesmo que as ilhas de personalidade criadas a partir de memórias-base não apresentem qualquer função prática, por exemplo, é impossível não se encantar com a forma como todos os elementos da trama mental refletem a montanha russa emocional que Riley embarca nos primeiros dias de sua nova vida: o desmoronamento da Terra da Bobeira, por exemplo, é um evento que deve despertar a identificação de boa parte dos espectadores, especialmente os mais grandinhos.

DIVERTIDA MENTE (Inside Out)

E é justamente aí que reside a grande beleza de Divertida Mente, cuja ambição resgata o brilhantismo que se tornou marca registrada da Pixar, mas não era visto desde Toy Story 3, de 2010. Com sensibilidade ímpar, o filme mostra como crescer e amadurecer é um processo tortuoso, desafiador, repleto de obstáculos, incertezas e perdas, que surpreende o indivíduo com rasteiras inesperadas e demanda que novas ferramentas sejam criadas para o enfrentamento de cada desafio extra apresentado pela vida. Além disso, o longa também merece nota por levantar a hipótese de que acolher emoções tidas como negativas, como a Tristeza, pode ser não só uma experiência catártica, mas também combustível para eventuais emoções positivas - uma ousadia admirável para um filme supostamente voltado para as superprotegidas crianças do século XXI. Como se não bastasse, Divertida Mente vai além e extrai alguns dos melhores frutos de sua premissa ao sugerir que o acervo de memórias-base (tidas como definidoras de personalidade) de um indivíduo pode, eventualmente, contar com uma parcela de recordações tristes - ou, ainda, de memórias agridoces, marcadas por emoções mistas, complexas, sem que tudo isso comprometa irremediavelmente a estabilidade emocional de uma pessoa.

E a eficiência com que Divertida Mente trabalha seus temas (incluindo aí, também, a excepcional cena em que damos uma bisbilhotada reveladora nas mentes dos pais de Riley durante um jantar) é tamanha que, mesmo apresentando um universo rico e prolífero, a produção não deixa a impressão de que grandes oportunidades foram desperdiçadas. Muito pelo contrário: com muitíssimo bom humor, o filme faz graça com situações corriqueiras (como sentir o cérebro congelar com alguma bebida ou ficar com uma música presa na cabeça), além de utilizar com extrema habilidade elementos previamente introduzidos sem maior alarde para tocar ou solucionar conflitos. Como não poderia deixar de ser, os aspectos técnicos da produção correspondem às altas expectativas no que diz respeito à qualidade e à riqueza de detalhes, embora o design da maioria dos personagens e de alguns cenários não esteja entre os mais memoráveis da Pixar.

Homenageando o Cinema ao atribuir à Fábrica de Sonhos (rótulo comumente atribuído à sétima arte) da mente de Riley uma fachada hollywoodiana clássica inconfundível, Divertida Mente é uma produção cuja imensidão do triunfo narrativo está diretamente vinculada à acessibilidade de seus temas e à sensibilidade com que são trabalhados. Afinal, que atire a primeira pedra aquele que nunca permitiu se afetar pelas dores implacáveis e recompensas revigorantes desse fantasma chamado amadurecimento.

DIVERTIDA MENTE (Inside Out)

1 de abril de 2015

Crítica | Velozes e Furiosos 7

VELOZES E FURIOSOS 7 (Furious 7)

★★

Furious 7, EUA, 2015 | Duração: 2h17m46s | Lançado no Brasil em 2 de abril de 2015, nos cinemas | Baseado nos personagens de Gary Scott Thompson. Escrito por Chris Morgan | Dirigido por James Wan | Com Vin Diesel, Paul Walker, Michelle Rodriguez, Jason Statham, Tyrese Gibson, Chris 'Ludacris' Bridges, Jordana Brewster, Dwayne Johnson, Kurt Russell, Lucas Black, Nathalie Emmanuel, Djimon Hounsou, John Brotherton, Elsa Pataky, Tony Jaa e Ronda Rousey.

Pôster/capa/cartaz nacional e crítica de VELOZES E FURIOSOS 7 (Furious 7)Até Velozes & Furiosos 6, a longevidade da franquia de ação iniciada em 2001 soava como um fenômeno, no mínimo, interessante: após tropeçar feio do segundo ao quarto exemplar, a série ganhou um surpreendente novo fôlego a partir de Velozes & Furiosos 5: Operação Rio, quando passou a conquistar seus melhores resultados de bilheteria e crítica. Entretanto, com o lançamento deste sétimo longa, a sobrevida da franquia passou a me preocupar seriamente: a falta latente de originalidade e a sucessão de erros cometidos pela produção surgem como razões mais que suficientes para encerrar os trabalhos por aqui, evitando que a situação piore ainda mais.

Escrito novamente por Chris Morgan (que assumiu a função pela primeira vez derrapando em Desafio em Tóquio), Velozes e Furiosos 7 segue o gancho deixado pelo desfecho do último filme e traz Jason Statham no papel de Deckard Shaw, um criminoso implacável que embarca em uma missão de vingança após a equipe liderada por Dominic Toretto (Vin Diesel) enviar seu irmão, o vilão da trama anterior (vivido por Luke Evans), para um leito hospitalar, repleto de fraturas e contusões. Após breves e irresolutos encontros entre mocinhos e vilão, Dom é convidado por um agente do governo (Kurt Russell) a assumir a missão de resgate da hacker Ramsey (Nathalie Emmanuel), que se encontra sob domínio do terrorista Jakande (Djimon Hounsou) - e, em troca, Toretto teria acesso ao Olho de Deus, uma aparelhagem altamente sofisticada (e clichê) que, invadindo qualquer dispositivo eletrônico do mundo que contenha câmera ou microfone, é capaz de rastrear e apontar a localização de Shaw (ou de qualquer outro indivíduo do planeta) em questão de minutos.

Estreando na franquia após quatro trabalhos consecutivos do taiwanês Justin Lin, o malaio James Wan se revela uma escolha estranha e, de certa forma, equivocada para a direção: reconhecido por seu trabalho em filmes de terror (de Jogos Mortais ao cultuado Invocação do Mal), o cineasta lança mão de algumas afetações pouco eficientes e demonstra certa falta de jeito com o novo gênero. Assim, Wan já inicia seu trabalho tentando inserir o filme na embalagem da franquia à força, inundando a tela com mulheres provocantes, gasolina e testosterona gratuitas e apostando em ineficazes aceleradas na imagem que remetem às menos louváveis produções estreladas por Jason Statham, comprometendo a eficácia de uma cena com inegável potencial. Além disso, em várias ocasiões, as corridas, perseguições e lutas parecem bem mais confusas e incompreensíveis do que o ideal, ao passo que pouquíssimos planos ou trechos das sequências de ação se destacam, chamam mais atenção ou causam maior impacto, o que é uma pena.

Ainda nesse sentido, o trabalho de Wan também é comprometido por efeitos especiais surpreendentemente irregulares: repare, por exemplo, como os carros que despencam de um avião são muitíssimo mais realistas do que aquele absurdamente artificial que atravessa o vão entre prédios em Abu Dhabi, e como isso afeta diretamente o resultado das respectivas passagens. Porém, a pior decisão técnica de Velozes e Furiosos 7 é, sem a menor sombra de dúvida, a conversão do filme para 3D: exibindo uma série de inconsistências físicas já nos primeiros segundos de projeção (rack focuses, árvores e miragens do asfalto são completamente negligenciados pela conversão), o uso da fajuta tecnologia tridimensional destrói tanto o visual do filme quanto a experiência do público - e até mesmo a opção de Wan de girar a câmera acompanhando cambalhotas ou outras estripulias dos personagens em determinadas ocasiões é capaz de aproximar o espectador da ação com mais eficiência do que a horrorosa tridimensionalidade.

Dwayne Johnson e Jason Statham em VELOZES E FURIOSOS 7 (Furious 7)

Mas, evidentemente, não é só em questões técnicas que Velozes e Furiosos 7 decepciona: o roteiro, que se leva muitíssimo mais a sério do que deveria, é consideravelmente estúpido e em incontáveis ocasiões se coloca acima do bom senso e da inteligência do espectador. Além de requentar elementos prévios (praticamente todos os dramas de todos os personagens) e repetir fórmulas (depois de lutar contra Gina Carano no filme anterior, Michelle Rodriguez agora enfrenta outra lutadora de MMA, Ronda Rousey), o filme é sensivelmente prejudicado pela forma arbitrária como Morgan e Wan lidam com os riscos a que os personagens são expostos, anulando as cotas de fatalidade de acidentes altamente destruidores e violentos (como uma batida frontal proposital em alta velocidade) ao mesmo tempo em que transforma determinada colisão substancialmente mais simples (para os padrões vigentes) em uma situação absurdamente dramática para o motorista envolvido - e confesso que, ciente da necessidade de reajustes na trama criada pelo falecimento do ator Paul Walker durante as filmagens, as únicas cenas que me causaram algum tipo de tensão foram aquelas envolvendo Brian, já que a morte do personagem rondava minha mente como uma solução possível para a provável defasagem nas filmagens.

O que nos leva, naturalmente, à homenagem que a produção oferece a Walker - e encerre a leitura por aqui caso revelações desta natureza lhe desagradem. Ao que tudo indica, o conflito de Brian como pai de uma família ameaçada de morte já fazia parte do roteiro desde o princípio; entretanto, o esforço de intensificar este drama do sujeito fica muitíssimo evidente na trilha sonora de Brian Tyler, que surge demasiadamente melosa e melancólica em todas as cenas envolvendo esta faceta do personagem. Dessa forma, o filme parece bastante disposto a integrar o trágico e precoce fim da trajetória do ator à narrativa, por mais desajeitada e inapropriada que a tentativa pareça ou se revele - o que é confirmado pelo desfecho do filme, que escancara essa intenção em uma sequência tão tocante quanto apelativa, milimetricamente arquitetada para conduzir os espectadores ao choro (dentre os quais, confesso, me incluo) e com direito à única (ou mais explícita) e ligeiramente grotesca inserção digital do rosto do ator no corpo de um dublê.

Frustrando o público com um vilão caricato construído em torno do mesmíssimo tipo implacável e presunçoso que Jason Statham já encarnou incontáveis vezes em sua carreira, Velozes e Furiosos 7 é uma produção que busca incessantemente o humor com sucesso meramente ocasional (a cena absurda e hilária em que determinado personagem decide por conta própria encerrar o tratamento de um fratura e rompe o gesso que encobria seu braço é, talvez, o ponto alto da projeção nesse sentido) e, sobretudo, comprova que a fonte de inspiração da franquia parece irremediavelmente comprometida, qualquer que tenha sido o potencial contido na equipe ou no universo que forneceu gás para que a série caminhasse até aqui. Talvez esteja mesmo na hora de fazer jus à promessa que, de um modo ou de outro, vários dos filmes fizeram e nenhum ainda cumpriu: a de aposentar de vez esta possante máquina de fazer dinheiro.

Paul Walker em VELOZES E FURIOSOS 7 (Furious 7)