Crítica | O Lar das Crianças Peculiares Crítica | Bruxa de Blair Crítica | Looking: The Movie


28 de setembro de 2016

Crítica | O Lar das Crianças Peculiares

Lauren McCrostie, Pixie Davies, Thomas e Joseph Odwell e Ella Purnell em O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)

★★★

Miss Peregrine's Home For Peculiar Children, Reino Unido/Bélgica/EUA, 2016 | Duração: 2h06m46s | Lançado no Brasil em 29 de setembro de 2016, nos cinemas | Baseado no romance de Ransom Riggs. Roteiro de Jane Goldman | Dirigido por Tim Burton | Com Asa Butterfield, Eva Green, Samuel L. Jackson, Ella Purnell, Terence Stamp, Chris O'Dowd, Rupert Everett, Allison Janney, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies, Joseph Odwell, Thomas Odwell, Cameron King, Kim Dickens e Judi Dench.

Pôster/capa/cartaz nacional de O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)
Concebido pelo escritor americano Ransom Riggs como fruto de sua paixão por fotografia vernacular e histórias bizarras, O Lar das Crianças Peculiares soa como uma versão infanto-juvenil fantasiosa de X-Men que, nas mãos do cineasta Tim Burton, ganha uma abordagem sombria mais que apropriada e bem-vinda. Entretanto, diferentemente do que ocorria nas histórias dos mutantes da Marvel ou em produções que abraçam paradoxos temporais, o filme abre mão de grande parte do potencial da premissa e dos elementos fantasiosos que definem seu universo ao manter o foco na tradicional disputa entre o bem e o mal, que ao menos é imaginativa o bastante para manter o espectador entretido.

No roteiro, escrito por Jane Goldman (Kingsman: Serviço Secreto), o garoto Jake (Asa Butterfield) decide viajar para uma pequena e remota ilha galesa depois que seu avô, Abe (Terence Stamp), à beira da morte, tenta convencê-lo que as histórias de ninar que lhe contara durante a infância envolvendo um orfanato repleto de crianças com habilidades especiais eram, de fato, reais. Esquivando-se da incredulidade de seu pai (Chris O'Dowd), Jake acaba atravessando um fenda temporal e retorna a 3 de setembro de 1943, dia que a senhora Peregrine (Eva Green) e suas crianças peculiares revivem incessantemente como meio de se proteger de ameaças externas. Entretanto, a segurança daquela fenda é comprometida pelo senhor Barron (Samuel L. Jackson) e um grupo de seres peculiares nefastos e inescrupulosos que desejam transferir a imortalidade própria da vida em loops temporais para a linha cronológica convencional, condição que supostamente seria alcançada através de um experimento perigoso que coloca ymbrynes - peculiares capazes de manipular o tempo, como a senhora Peregrine - na posição de cobaias.

Pra início de conversa, O Lar das Crianças Peculiares peca por apresentar um grupo de personagens que, embora presos a um mesmo espaço-tempo por mais de 70 anos, não apresentam qualquer tipo de consternação em decorrência do confinamento ou da reiteração - sem mencionar, é claro, a incoerência de vermos figuras cujas personalidades são compatíveis com suas idades biológicas, e não com suas experiências e tempo de vida. Além disso, a arbitrariedade e a conveniência das habilidades especiais dos personagens chega a causar desconforto - incluindo a revelação absolutamente frustrante da peculiaridade do protagonista, que depende diretamente do fracasso do primeiro experimento de imortalidade dos vilões mesmo sem possuir qualquer conexão com o evento em si.

Eva Green, Georgia Pemberton e Asa Butterfield em O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)

Por outro lado, o filme ganha pontos ao se manter fiel a seus conceitos particulares e ao tom sombrio, mesmo quando ambos desafiam as expectativas normalmente estabelecidas para produções com público-alvo mais jovem: a forma como o roteiro explora a dinâmica dos loops temporais no terceiro ato, por exemplo, pode soar confusa até mesmo para os mais crescidinhos, ao passo que passagens como aquelas que trazem um cadáver de criança sendo usado como marionete ou os vilões devorando uma tigela de olhos conseguem ser impactantes a seu modo, mas sem traumatizar a rapaziada. Ainda nesse sentido, Burton e a direção de arte oferecem diversas contribuições acertadas a essa atmosfera mais soturna: repare, por exemplo, a casualidade com que Peregrine e as crianças vestem sisudas máscaras de gás para assistir a determinado espetáculo de destruição lúgubre por excelência, ou o modo como o visual sutilmente sinistro do figurino dos gêmeos, vividos por Joseph e Thomas Odwell, torna a inofensiva dupla uma presença levemente incômoda e perturbadora.

Embora menos espalhafatoso que em lançamentos anteriores do cineasta, o design de produção não merece menos elogios, que se estendem tanto aos departamentos de maquiagem e figurino (mesmo quando sugestivos num nível que às vezes flerta com a obviedade), por exemplo, quanto ao de efeitos especiais - com destaque para a sequência em que o funcionamento de determinada embarcação é restabelecido. Por fim, também vale apontar o efeito 3D é até bastante eficaz (especialmente considerando que a conversão foi feita na pós-produção) e que o uso notável de stop-motion na cena em que dois bonecos animados por Enoch (Finlay MacMillan) se enfrentam surge como um lembrete divertido e inofensivo do homem que está por trás das câmeras.

Com um Asa Butterfield esforçado, uma Eva Green contrabalanceando firmeza, zelo, mistério e excentricidade com excelência e um Samuel L. Jackson que se diverte mais do que o próprio público, O Lar das Crianças Peculiares é um passatempo mediano que, com o perdão pelo trocadilho, carece justamente de peculiaridades capazes de destacá-lo de tantas outras produções semelhantes ou equivalentes.

Asa Butterfield e Ella Purnell em O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)

14 de setembro de 2016

Crítica | Bruxa de Blair



Blair Witch, EUA, 2016 | Duração: 1h29 | Lançado no Brasil em 15 de setembro de 2016, nos cinemas | Escrito por Simon Barrett | Dirigido por Adam Wingard | Com James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Brandon Scott, Wes Robinson e Valorie Curry.

Lançado em 1999, A Bruxa de Blair se tornou um marcante fenômeno cultural por um somatório de razões. Amparada por uma campanha de marketing viral consistente e ambiciosa para a época, a obra de baixíssimo orçamento conquistou público e crítica graças ao eficiente uso de seus poucos recursos: a visceralidade do elenco estreante (dos diálogos improvisados às famigeradas estratégias dos realizadores para apavorar os atores durante o período de filmagens) e a intencional precariedade técnica casaram perfeitamente bem com a linguagem do found footage, subgênero ainda pouco popular na época.

Ao longo da década seguinte e respaldados pelo sucesso de A Bruxa de Blair, filmes como Cloverfield - Monstro e [REC] foram capazes de injetar novo gás aos falsos documentários com as tais "filmagens encontradas" - mas o desgaste da fórmula, a negligência de certos roteiros e até mesmo a completa incompreensão dos princípios básicos do subgênero acarretaram em uma leva de produções deploráveis, de modo que para cada triunfo como Poder Sem Limites ou Creep, fomos penalizados com desastres na linha de Filha do Mal, Projeto Dinossauro ou da penca de continuações do ótimo Atividade Paranormal.

Assim, foi com grande frustração que saí cabisbaixo da sessão deste novo Bruxa de Blair, depois de testemunhar uma marca de sucesso sendo ressuscitada após 17 anos às custas de um projeto que parece disposto a abdicar praticamente tudo que tornava o longa original uma obra tão marcante. Mais nova parceria entre o roteirista Simon Barrett e o diretor Adam Wingard (Você é o Próximo), a produção parece ignorar o vergonhoso e absurdo Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras e traz um grupo de jovens se metendo na floresta de Burkittsville, em Maryland, depois que James (James Allen McCune) é levado a crer por um vídeo da internet que sua irmã, Heather Donahue, ainda estaria perdida no local vinte longos anos após os incidentes retratados no primeiro longa. Guiado por dois nativos excêntricos, o grupo obviamente acaba descobrindo da pior maneira que a maldição da Bruxa de Blair é real.


As filmagens, por outro lado, são de uma artificialidade ímpar: como tem sido comum no subgênero, os diálogos são demasiadamente claros e limpos, os sons ambientes se distribuem com destreza entre os vários canais do sistema de som e as imagens produzidas até mesmo por câmeras minúsculas contam com qualidade exemplar - menos, claro, quando sofrem interferências, recurso também bastante batido. Ainda nesse sentido, o longa peca pelo excesso de cortes: a alternância entre as várias câmeras utilizadas pelo grupo compromete severamente a pretendida naturalidade das imagens - especialmente se compararmos com o filme de 99, que contava com apenas duas câmeras, operadas de fato pelos próprios atores, e uma edição mais simples, com planos mais longos.

Pra piorar, os realizadores também divergem criativamente em relação a alguns dos maiores êxitos do primeiro filme. Enquanto o original abria mão dos sustos, efeitos especiais e trilha sonora pra apostar todas as fichas no poder da sugestão, esta continuação acha conveniente exibir certas entidades, martelar o teor tenebroso de deteminadas passagens com acordes sonoros alheios ao universo diegético e assustar o público da forma mais gratuita possível: com elevação abrupta do som nas inúmeras aparições inexplicavelmente repentinas de praticamente todos os personagens (em certo momento, um deles até reconhece o problema e alega que "vocês têm que parar de fazer isso [aparecer de supetão]", o que não redime a falha).

Como se não bastasse, o roteiro de Barrett é um festival desregulado de clichês: quem ficaria remotamente espantado ao constatar, por exemplo, que o personagem mais incrédulo e desdenhoso em relação à maldição é também sua primeira vítima? Aliás, vale apontar que nenhum dos novos elementos apresentados surge como um complemento interessante à lenda da Bruxa de Blair: aquele envolvendo lapsos temporais, aliás, é particularmente danoso e, fatalmente, prejudica o ritmo da narrativa, quando estende demasiada e inadvertidamente a duração de certa noite. Pra piorar, a produção consegue se comprometer até mesmo na escolha das locações - e não há nada mais frustrante do que perceber que as características físicas da floresta desse novo filme destoam enormemente das paisagens vistas no original, o que arrebenta a conexão entre suas tramas (além de ter me causado calafrios pela recordação do brasileiro Desaparecidos, provavelmente o pior found footage já produzido na História).

Prejudicado, ainda, por um elenco insosso, Bruxa de Blair consegue se aproximar da produção original em ao menos um aspecto: ter contado com uma campanha de marketing cuja estratégia obteve algum êxito - mas, dessa vez, atraindo atenção para um projeto que lamentavelmente não a merecia.

4 de agosto de 2016

Curta | Lights Out


O terror é, certamente, um dos gêneros que possui maior afinidade com a duração e a linguagem de curtas. O sueco Lights Out é um ótimo exemplo disso e, em seus menos de três minutos, estabelece um objetivo bem claro, que cumpre com bastante destreza: apresentar o conceito de sua assombração e fazê-la atacar os nervos da audiência - sem a necessidade de buscar explicações elaboradas sobre o passado, a origem ou as motivações deste algoz, como normalmente ocorre em longas (e provavelmente ocorrerá na adaptação americana Quando as Luzes se Apagam.

Apresentando uma situação rotineira, o curta potencializa o impacto do horror ao utilizar uma atriz comum, em um cenário idem e se comportando como a maioria de nós o faria numa situação como aquela, indo da incredulidade natural ao pânico inevitável em questão de segundos. Além disso, o cineasta David Sandberg faz um uso calculado e certeiro de elementos como trilha, ruídos e silêncios da edição sonora, enquadramentos, montagem e efeitos especiais na construção do medo, prejudicando o sono de todos aqueles que decidirem ver (ou lembrar) de Lights Out a caminho da cama.

Lights Out, Suécia, 2013 | Escrito por David Sandberg | Dirigido por David Sandberg | Com Lotta Losten.

1 de agosto de 2016

Crítica | Looking: The Movie

Jonathan Groff, Murray Bartlett e Frankie J. Alvarez em LOOKING: THE MOVIE

★★★★

Looking: The Movie, EUA, 2016 | Duração: 1h24m35s | Lançado no Brasil em 30 de julho de 2016, na HBO | Baseado na série criada por Michael Lannan. Escrito por Andrew Haigh & Michael Lannan | Dirigido por Andrew Haigh | Com Jonathan Groff, Frankie J. Alvarez, Murray Bartlett, Lauren Weedman, Raúl Castillo, Russell Tovey, Daniel Franzese, O-T Fagbenle, Bashir Salahuddin, Chris Perfetti, Derek Phillips, Michael Rosen.

Pôster/capa/cartaz de LOOKING: THE MOVIE
Embora ainda estejam longe de definir um cenário ideal, a discriminação e a repressão históricas sofridas pela comunidade LGBT vêm regredindo expressivamente ao longo das últimas décadas, permitindo, por exemplo, que a presença de figuras queer na indústria cultural se torne cada vez mais comum e, sobretudo, mais naturalizada. Entretanto, por maiores que sejam esses avanços, ainda persiste uma enorme carência de produções culturais que foquem e mergulhem em questões que, embora relacionáveis e universais em sua essência, são próprias de uma comunidade ainda mal compreendida.

E é com um pesar incontornável e a sensibilidade habitual que Patrick, Agustín, Dom, Doris e Kevin se despedem do público em Looking: The Movie, telefilme que arremata o arco da série homônima precocemente cancelada pela HBO no último ano por falta de audiência e que, ao longo de apenas 18 episódios de meia hora de duração, lançou um olhar acurado sobre os anseios, expectativas, frustrações e decepções do homem gay contemporâneo em questões relacionadas a amizade, relacionamentos, sexo, saúde, carreira e família.

No filme, escrito pelo diretor e produtor Andrew Haigh (Weekend) ao lado do criador da série Michael Lannan, descobrimos que o designer de videogames Patrick (Jonathan Groff), frustrado com os rumos que sua vida vinha tomando, mudou-se para Denver em busca de algum tipo de recomeço catártico. De volta a São Francisco para o casamento de Agustín (Frankie J. Alvarez) e Eddie (Daniel Franzese), o rapaz reencontra figuras de seu passado (recente) e acaba se dando conta de que a decisão de abandonar a cidade tratava-se, na realidade, de uma estratégia para fugir dos conflitos emocionais mal resolvidos que ainda o afligiam, em vez de enfrentá-los de frente.

Jonathan Groff e Russell Tovey em LOOKING: THE MOVIE

Levemente prejudicado pela carga de diálogos expositivos, que visam tanto dar alguma orientação ao público que não acompanhou a série quanto preencher a lacuna entre a segunda temporada e o filme, Looking apresenta versões mais maduras de seus personagens, mas concentra as maiores atenções no arco do protagonista: visivelmente empenhado em reprimir parte de suas emoções, Patrick surge como um sujeito menos impulsivo e autodestrutivo que, mais do que nunca, parece disposto a compreender o lado de seus interlocutores e a reconhecer seus próprios e múltiplos erros em assuntos não resolvidos ao longo das temporadas.

Aliás, a excelência da construção dos personagens é um dos grandes méritos de Looking, fazendo com que a narrativa seja amplamente enriquecida pela simples interação entre suas figuras imperfeitas e erráticas - o que fica evidente, por exemplo, na eficácia da sequência em que Patrick e seu ex-patrão e ex-amante Kevin (Russell Tovey) acertam suas pendências pessoais, quando o roteiro não se rende à tentação de soluções fáceis, frágeis e piegas. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da passagem próxima ao desfecho em que o protagonista e sua antiga paixão, Richie (Raúl Castillo), debatem sobre o futuro, numa tentativa atrapalhada e infeliz de oferecer ao público uma perspectiva palpável, mas não muito concreta sobre o destino de ambos, que se estabelece como uma das maiores decepções do longa.

Como era de se esperar, Looking: The Movie ainda merece aplausos por inserir na narrativa breves reflexões sobre temas que dialogam diretamente com o público gay e que ainda não haviam sido abordados na série - a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou como se assumir precoce ou tardiamente pode influenciar de maneiras distintas a formação da personalidade de um indivíduo são alguns exemplos. Por fim, os realizadores mais uma vez chamam a atenção pela veracidade e visceralidade das relações sexuais vistas em tela - exatamente o que deveríamos esperar de uma cena pensada, escrita, coreografada, dirigida e protagonizada por homens homossexuais.

Celebrando com eficiência ímpar o valor de amizades legítimas e merecendo aplausos por toda a discussão em torno da inexistência de respostas fáceis para questões sentimentais complexas e da importância de, nesses casos, ter culhões para assumir riscos em busca da felicidade (com destaque para a estranhamente eficiente cena em que Patrick e Dom exploram com espontaneidade, naturalidade e sem neuras a barreira que separa a amizade da sexualidade), Looking: The Movie é um encerramento à altura de uma série extremamente subestimada que, além de saudades e melancolia, deixará uma legião de órfãos de uma representatividade que não se vê todo dia por aí.

Jonathan Groff e Raúl Castillo em LOOKING: THE MOVIE

1 de maio de 2016

Crítica | Hush: A Morte Ouve

Kate Siegel em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

★★★

Hush, EUA, 2016 | Duração: 1h21m43s | Lançado no Brasil em 8 de abril de 2016, na Netflix | Roteiro de Mike Flanagan & Kate Siegel | Dirigido por Mike Flanagan | Com Kate Siegel, John Gallagher Jr., Samantha Sloyan e Michael Trucco.

Pôster/capa/cartaz de HUSH: A MORTE OUVE (Hush)
Em mais de uma ocasião, usei este espaço para comentar (e às vezes lamentar) o desgaste que o terror vem sofrendo ao longo dos anos. Amplamente dependente de suas convenções, o gênero segue prolífero na cena independente enquanto suplica com cada vez maior intensidade por realizadores arrojados e premissas que não só justifiquem a reutilização da cartilha de convenções, mas também que façam bom uso destas.

Hush - A Morte Ouve seria apenas mais um terror ordinário caso não introduzisse um elemento particular que dá abertura à abordagem singular de uma premissa pra lá de batida. Escrito pelo diretor Mike Flanagan e pela atriz principal Kate Siegel, o filme gira em torno de uma escritora que, isolada em uma casa remota com janelas amplas no meio de uma floresta, torna-se alvo de um psicopata mascarado com intenções homicidas e motivações incertas. O que diferencia Maddie (Siegel) das incontáveis figuras que já protagonizaram a mesmíssima história nas telonas anteriormente, porém, é que a mulher não conta com um dos sentidos: a audição. Assim, a moça se vê obrigada a redobrar a atenção e utilizar todas as ferramentas que existirem a seu favor para sair daquela situação com vida.

Embora enriqueça a narrativa, esse diferencial obviamente não impede que outros erros sejam cometidos e comprometam suavemente o projeto como um todo. Como de costume, o roteiro depende da imprudência e falta de cautela tanto da mocinha quanto do vilão para transformar um embate trivial em um longa-metragem de oitenta minutos - e os roteiristas ao menos são honestos ao assumir logo a estupidez de seu antagonista, que promete torturar psicologicamente a protagonista e só invadir a casa quando a mulher estiver derrotada pelo abatimento, permitindo, naturalmente, que Maddie elabore uma porção de pequenos planos para tentar ludibriar o psicopata vivido por John Gallagher Jr.

John Gallagher Jr. em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

O ator, aliás, revela-se uma escolha infeliz para o papel: habituado a dar vida a figuras inseguras ou carismáticas, Gallagher Jr. trabalha a psicopatia do homem através de caretas convencionais e jamais transforma o sujeito em uma figura mais assustadora do que o indivíduo mascarado apresentado no primeiro ato do longa. Kate Siegel, por outro lado, faz da protagonista um ser muitíssimo mais crível, que apanha para operar uma balestra e sofre de dor quando ferida enquanto evolui do incontestável e incontornável pavor inicial ao surto de coragem que a acomete na reta final do longa.

Porém, mesmo com todos os problemas, Hush é beneficiado pelo talento de Mike Flanagan, que já havia chamado a atenção no interessante O Espelho e, neste novo trabalho, faz um excelente uso das ferramentas narrativas (trilha, montagem, fotografia, edição de som) na construção da tensão do longa - especialmente ao colocar os espectadores, ouvintes em sua expressiva maioria (taí mais um filme que não funcionaria tão bem para deficientes auditivos), em posição especialmente privilegiada, compartilhada pelo vilão.

Lançado diretamente na internet, Hush - A Morte Ouve é uma produção esforçada cujos poucos recursos recaem nas mãos de profissionais competentes e promissores sobre os quais, se tivermos sorte, ouviremos bastante nos próximos anos - com o perdão pelo trocadilho infame.

John Gallagher Jr. em HUSH: A MORTE OUVE (Hush)

24 de abril de 2016

Crítica | Mogli: O Menino Lobo

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

★★★

The Jungle Book, EUA, 2016 | Duração: 1h45 | Lançado no Brasil em 14 de abril de 2016, nos cinemas | Baseado nos livros de Rudyard Kipling. Roteiro de Justin Marks | Dirigido por Jon Favreau | Com Neel Sethi e as vozes de Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong'o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling.

Pôster/capa/cartaz nacional de MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)
Não fosse a memória emotiva do público em relação à animação clássica homônima, Mogli: O Menino Lobo teria pouquíssimo apelo e muito provavelmente fracassaria nas bilheterias internacionais - isso, claro, se algum estúdio tivesse tido a coragem de dar sinal verde para a produção. Diferentemente do ótimo e recente Cinderela, cujos arquétipos contam com certa atemporalidade e ainda encontram ressonância nos dias atuais, esta refilmagem da produção cinquentenária dos estúdios Disney até consegue se adequar com certa eficiência à linguagem e à tecnologia contemporâneas, mas fica refém da frouxidão e do caráter episódico da trama.

Escrito pelo pouco experiente Justin Marks com base nos livros de Rudyard Kipling e tomando sempre a animação da década de 60 como parâmetro, o filme gira em torno de um garoto humano (Neel Sethi) que, encontrado pela pantera Bagheera (Ben Kingsley) e criado por lobos, tem a selva como seu verdadeiro lar. A presença de Mogli naquele ecossistema, entretanto, não agrada a todos: vítima de ataques de humanos no passado, o perigoso tigre Shere Khan (Idris Elba) anuncia durante uma trégua entre os animais sua intenção de matar o garoto, evitando que este se torne um homem e coloque em risco a fauna da região. Assim, o jovem rapaz acaba sendo obrigado a evadir da área rumo à terra dos homens, deparando-se no caminho com uma série de animais com as mais diversas intenções.

Recorrendo sempre a soluções convenientes para as enrascadas em que Mogli se mete, o roteiro sofre da já mencionada dificuldade de conectar os diversos segmentos da jornada do garoto com a fluidez desejada - e o problema só não é maior graças à decisão acertada de incorporar apenas duas canções (The Bare Necessities e I Wanna Be Like You) da animação clássica à narrativa (há uma terceira, Trust in Me, durante os créditos finais). Além disso, as injeções de humor funcionam muito bem na maior parte do tempo, amenizando as deficiências do roteiro e surgindo como um adicional especial para o público adulto, notório alvo da nostalgia da produção - e não é à toa que, em sua segunda semana em exibição no Brasil, o filme tenha tido sessões dubladas substituídas por legendadas em diversas praças do país.

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

Sensivelmente mais assustador que o antecessor, Mogli: O Menino Lobo conta com um elenco de vozes estelar que nem sempre satisfaz as necessidades de seus personagens. Em um papel anteriormente assumido por homens em sua maioria, Scarlett Johansson confere à serpente Kaa o tom ao mesmo tempo enigmático e traiçoeiro demandado pela personagem - mas o resultado, seja pelo design do animal ou por alguma outra razão, não é tão satisfatório quanto o esperado. Por outro lado, Bill Murray mostra-se uma escolha divertida, competente e compatível com o preguiçoso, malandro e fiel urso Baloo, enquanto Christopher Walken confere ao primata Rei Louie um ar mafioso absolutamente adequado ao personagem, embora comprometa o número musical estrelado pelo vilão com seu canto medíocre.

Tecnicamente, o filme tem resultados coerentes com o investimento e com a escolha de um diretor como Jon Favreau, habituado ao uso intensivo de efeitos especiais. Toda a ampla variedade de espécies que compõem a fauna daquele ecossistema apresenta um visual extremamente convincente e se movimenta com inquestionáveis e irrepreensíveis complexidade e fluidez. Além disso, o design de produção consegue desenvolver cenários adequados às distintas fases da narrativa, como a sombria porção da floresta que sedia o encontro com Kaa contraposta às floridas, iluminadas e atraentes redondezas que servem de moradia para Baloo. Infelizmente, a onipresença de criações digitais confere uma artificialidade incontornável e prejudicial à estética da produção: em momento algum acreditei que o talentoso e esforçado Neel Sethi estivesse na selva que ambienta a trama - e o surpreendentemente péssimo 3D só piora a situação (repare o desastroso resultado de uma cena envolvendo chuva, por exemplo).

Arrematado com créditos finais que chamam a atenção pela criatividade e bom humor, Mogli: O Menino Lobo aposta na nostalgia do público e na sofisticação da tecnologia para criar a demanda por um remake, algo que por si só, não existiria - e embora o resultado não desperte desgostos particularmente severas, tampouco inspira maiores elogios.

Neel Sethi em MOGLI: O MENINO LOBO (The Jungle Book)

17 de abril de 2016

Crítica | Rua Cloverfield, 10

Mary Elizabeth Winstead e John Goodman em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

★★★★

10 Cloverfield Lane, EUA, 2016 | Duração: 1h43 | Lançado no Brasil em 7 de abril de 2016, nos cinemas | História de Josh Campbell & Matthew Stuecken. Roteiro de Josh Campbell & Matthew Stuecken e Damien Chazelle | Dirigido por Dan Trachtenberg | Com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr.

Pôster/cartaz/capa nacional de RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)
Do topo do meu privilégio masculino, por muito tempo rejeitei a ideia da corrente feminista que defende que "todo homem é um estuprador em potencial". O discurso só passou a fazer sentido para mim quando fiz a leitura correta e entendi que, em situações criticas, a figura masculina, por si só, pode representar uma ameaça palpável para mulheres e despertar nelas um instinto de autopreservação; em outras palavras, é perfeitamente compreensível que uma mulher adote uma postura defensiva, por exemplo, ao cruzar com um homem desconhecido em uma rua deserta, já que a estabilidade mental do sujeito é uma incógnita e agressões misóginas são muitíssimo mais comuns do que gostaríamos.

Entretanto, mesmo já tendo ajustado minha perspectiva em relação ao assunto, continuo sendo e sempre serei um privilegiado indivíduo do sexo masculino - e por maiores que sejam a compaixão e a empatia que nutro pela causa feminista, elas jamais me trarão uma compreensão satisfatória do que é estar no papel oprimido em uma situação dessa natureza. Mencionei tudo isso para destacar que Rua Cloverfield, 10 é, sem dúvidas, um thriller aterrador para todas as audiências, mas deve representar uma experiência ainda mais tensa e penosa para o público feminino.

No filme, escrito por Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle, a aspirante a estilista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre um acidente automobilístico e acorda horas depois acorrentada ao encanamento de um calabouço. Já suficientemente apavorada, a mulher descobre que o cativeiro é mantido por Howard (John Goodman), um homem mais velho, corpulento e ligeiramente sombrio - e quando ela reivindica sua liberdade e implora que sua integridade seja preservada, o sujeito anuncia misteriosamente que o objetivo daquele cárcere é "mantê-la viva".

John Goodman, Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr. em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

A ambiguidade do personagem de John Goodman é a espinha dorsal do suspense do filme, trabalho esse que o ator veterano desempenha com imensa competência: embora consiga tranquilizar gradualmente a desconfiada Michelle conferindo-lhe certas liberdades, apresentando o abrigo subterrâneo que ambos e o alvoroçado Emmett (John Gallagher Jr.) compartilham e dividindo com ela sua teoria e evidências sobre o suposto ataque químico que assolou a superfície terrestre, o homem exibe uma série de comportamentos ambíguos que, vistos sob um prisma mais pessimista, são perfeitamente dignos de desconfiança - e confesso que, na maior parte do tempo, fui mais otimista e apostei na possibilidade de Howard ser um sujeito com boas intenções.

(Atenção!: o restante do texto contém spoilers)

Todavia, tratava-se de um posicionamento involuntariamente tendencioso (e um pouco machista, preciso admitir) de minha parte e teria sido um imenso erro e um tremendo desserviço caso os roteiristas tivessem seguido por essa vertente: caso o personagem de Goodman tivesse, de fato, boa índole, a postura defensiva de Michelle acabaria soando inoportunamente como equivocada histeria feminina. Assim, quando Howard assassina abruptamente Emmett na virada do segundo para o terceiro ato e ressurge, na cena seguinte, de barba feita, qualquer ambiguidade cai por terra e todas as atitudes suspeitas do homem ganham um contorno mais definido: Howard não é só um homem instável, perigoso e paranoico, mas um legítimo predador sexual, tão ou mais assustador que os inimigos que supostamente aguardam a protagonista do lado de fora do bunker.

Dividindo características remotas com o primo Cloverfield - Monstro, de 2008, Rua Cloverfield, 10 prova que não são necessários grandes recursos para a produção de um suspense de ficção científica eficiente e tematicamente relevante - e não é à toa que a parte mais ordinária e menos interessante do longa é justamente aquela transcorrida no exterior do abrigo, culminando em um desfecho substancialmente menos extasiante que o esperado. Um mero pecadilho para uma junção de esforços artísticos tão bem sucedida.

John Gallagher Jr., Mary Elizabeth Winstead e John Goodman em RUA CLOVERFIELD, 10 (10 Cloverfield Lane)

5 de março de 2016

Snervous Tyler Oakley

Tyler Oakley em SNERVOUS TYLER OAKLEY

Gravar vídeos conversando com uma câmera e postar na internet pode ser uma atividade altamente lucrativa nos dias atuais. Não há, entretanto, um passo-a-passo ou uma receita garantida para alcançar tal status: todos os dias, centenas de jovens devem lançar seus canais no YouTube na expectativa vã de alcançar a popularidade de sensações internacionais como Tyler Oakley, Miranda Sings, Shane Dawson e Connor Franta ou dos brasileiros Kéfera Buchmann, PC Siqueira, Jout Jout e Luba, cada qual alçado à fama on-line por circunstâncias particulares e difíceis de serem desvendadas, discernidas e enumeradas.

Trata-se de um nicho que, especialmente nos últimos meses, tem expandido em taxas exponenciais, conferindo fama apoteótica a anônimos em um fenômeno curioso e emblemático que merecia ser estudado. Infelizmente, o documentário Snervous Tyler Oakley não faz qualquer esforço de explorar as circunstâncias que transformaram o jovem de 26 anos em um dos mais populares youtubers da rede, surgindo como um documentário raso que, como bem apontou o crítico americano Noel Murray, soa mais como "parte do fenômeno, não uma examinação deste".

Murray é preciso em sua colocação: celebrados mais por seus carismas e pela forma simuladamente íntima como interagem com o público do que por habilidades artísticas ou talentos específicos, os youtubers têm aproveitado o fanatismo de uma base de fãs altamente suscetível para arrancar alguns trocados com linhas próprias de produtos, como livros e roupas. Dessa forma, Oakley é visto em Snervous rodando o mundo com um espetáculo que se resume ao protagonista sendo ele mesmo e fazendo estripulias diante de uma plateia homogeneamente histérica em um palco que reproduz o cenário de seus vídeos - e a inabilidade de incutir relevância no material que acompanha Tyler fora dos palcos prova que tanto o espetáculo quanto o documentário são, de fato, meros subprodutos com o selo Tyler Oakley.

Muitíssimo menos sutil do que obras como Katy Perry: Part of Me em suas tentativas de transformar o protagonista em uma figura humana, com falhas, defeitos e afetado pelos infortúnios da fama, o filme possui uma montagem grosseira (os cortes bruscos para telas pretas com textos explicativos parecem evocar uma importância incompatível com o conteúdo) e não consegue sequer evidenciar, por exemplo, a afinidade de Oakley, homossexual assumido, com a causa LGBT, limitando-se a relatar a experiência pessoal do rapaz e os conflitos familiares gerados pela questão.

Incapaz de estabelecer um tema ou um assunto central, Snervous Tyler Oakley é um documentário que não diz muito sobre uma figura que não tem muito a dizer - e se os vídeos de Oakley já estão se tornando demasiadamente enlatados e afetados pela bajulação excessiva da base de fãs, definitivamente não será um esforço encenado como esse que irá melhorar a situação.

★★

Snervous Tyler Oakley, EUA, 2015 | Duração: 1h22m54s | Lançado no Brasil em 15 de fevereiro de 2016, na Netflix | Dirigido por Amy Rice | Com Tyler Oakley e Korey Kuhl.

Korey Kuhl e Tyler Oakley em SNERVOUS TYLER OAKLEY

12 de janeiro de 2016

Crítica | O Bom Dinossauro

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

★★

The Good Dinosaur, EUA, 2015 | Duração: 1h33 | Lançado no Brasil em 7 de janeiro de 2016, nos cinemas | Conceito original e desenvolvimento de Bob Peterson. História de Peter Sohn & Erik Benson & Meg LeFauve & Kelsey Mann & Bob Peterson, Roteiro de Meg LeFauve | Dirigido por Peter Sohn | Com as vozes de Raymond Ochoa, Jack Bright, Jeffrey Wright, Frances McDormand, Marcus Scribner, Steve Zahn, Anna Paquin, Sam Elliot e John Ratzenberger.

Pôster/capa/cartaz nacional de O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)
Em algum momento ao longo dos 10 primeiros minutos de O Bom Dinossauro, fui repentinamente acometido pela certeza de que o pai do protagonista morreria a qualquer instante. Ainda desconheço os motivos exatos que me conduziram a tal conclusão, mas tenho alguns palpites: antes de mais nada, o filme introduz o protagonista como um dinossauro estabanado e covarde que, inserido em um núcleo familiar que estimula a competição entre os irmãos (cada qual deve desempenhar com excelência tarefas específicas para "deixar sua marca" no silo da família), estabelece uma relação conturbada com seu patriarca, por quem nutre uma idolatria e uma admiração jamais retribuídas. Além disso, a introdução da narrativa é extremamente esquemática e possui um teor educativo que beira o vexaminoso, de modo que, somando ao que foi dito anteriormente, a tal tragédia traz à tona todo o dramalhão e os típicos conflitos emocionais pretendido por esse tipo de trama, conduzindo o protagonista por uma jornada óbvia e previsível de aprendizado, autoconhecimento e crescimento pessoal.

Infelizmente, eu estava certo. Escrito por Meg LeFauve (do brilhante Divertida Mente) a partir de uma história bolada por Bob Peterson (Up - Altas Aventuras) e desenvolvida por outros quatro profissionais (incluindo o diretor Peter Sohn), o filme se passa alguns milhões de anos após a não-extinção dos dinossauros e gira em torno de Arlo (Raymond Ochoa), a ovelha negra de uma família dos répteis mesozoicos que, após testemunhar o pai perdendo a vida para salvá-lo de uma grande enxurrada, vai atrás do suposto culpado - Spot (Jack Bright), um pequeno e selvagem humano - em busca de vingança, até descobrir que o garoto é, na verdade, dócil e amigável. Assim, Arlo e Spot desenvolvem um companheirismo repleto de cumplicidade enquanto tentam retornar ao lar do protagonista, enfrentando no caminho a hostilidade de predadores e da vida selvagem.

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

Sem apresentar uma ideia original, surpreendente ou ousada sequer ao longo de seus mais de noventa minutos, O Bom Dinossauro é comprometido por uma narrativa terrivelmente frouxa, amarrada por lições óbvias e baratas que poderiam perfeitamente ser encontradas em um livro didático de pré-escola de segunda linha. Com uma falta de ambição que lembra os estúdios Blue Sky e Dreamworks em seus momentos mais embaraçosos, o filme recicla uma infinidade de ideias já abordadas anteriormente pela produção do gênero e mancha o currículo majoritariamente admirável da Pixar especialmente no quesito emotividade - e embora haja algum peso em uma ou outra cena, a insipidez e a falta de empatia generalizada colocam esses momentos hipoteticamente mais tocantes a anos-luz de distância dos rios de lágrimas já derramados graças aos brinquedos de Andy, às emoções de Riley ou à vida de casados dos Fredricksen.

Como se não bastasse, O Bom Dinossauro não merece elogios nem mesmo em termos técnicos: a trilha não possui qualquer tema marcante, o design dos cenários é até competente, mas não chama muita atenção, ao passo que a estética dos personagens decepciona profundamente, chegando a gerar incômodo: enquanto alguns remetem até mesmo aos traços e proporções grotescos do péssimo O Segredo dos Animais, outros parecem saídos diretamente da interminável e nada marcante galeria de personagens secundários da franquia A Era do Gelo. Para completar, a irregularidade do projeto fica mais do que evidente quando nos damos conta de que a cena mais eficaz da projeção é, também, a mais inadequada e fora de propósito; refiro-me, evidentemente, à passagem em que Arlo e Spot ingerem frutas estragadas com propriedade alucinógenas e embarcam em delírios psicodélicos perturbadores.

Carregando o grandioso selo de um estúdio consagrado pelo charme de seus personagens, pela inventividade técnica e pela imersividade de suas narrativas, O Bom Dinossauro proporciona uma experiência truncada que, a cada nova oportunidade desperdiçada de se reerguer, perde a atenção do espectador ao despertar perplexidade por todos os esforços investidos em um produto irremediavelmente indigesto.

O BOM DINOSSAURO (The Good Dinosaur)

24 de junho de 2015

Crítica | Minions

MINIONS

★★

Minions, EUA, 2015 | Duração: 1h31 | Lançado no Brasil em 25 de junho de 2015, nos cinemas | Escrito por Brian Lynch | Dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin | Com as vozes de Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allison Janney, Steve Coogan, Jennifer Saunders, Geoffrey Rush, Steve Carell e Pierre Coffin.

Pôster/capa/cartaz nacional de MINIONS
Sempre que tento entender o inexplicável e estrondoso sucesso do fraco Meu Malvado Favorito e de sua horrorosa continuação, lembro da ocasião em que estive presente em uma sessão de Dredd em que o teaser trailer em 3D do segundo filme foi exibido para uma plateia formada exclusivamente por adultos, cujas reações à peça de divulgação (que foi exaustivamente exibida ao longo de meses nos cinemas) chamaram muito minha atenção: primeiro, a incapacidade dos espectadores de esconder o deslumbramento infantil com a língua-de-sogra que parecia invadir a sala na direção das poltronas e, segundo, a explosão de gargalhadas (adultas, repito e enfatizo) que inundou o ambiente quando um dos minions esmurra e derruba um dos companheiros no desfecho da cena.

Trata-se de um fenômeno, no mínimo, curioso: alívios cômicos (ou sidekicks) por excelência, os seres amarelos unicelulares (?) dotados de um design pouquíssimo elegante e de um humor óbvio e rasteiro (que até funciona em várias ocasiões) caíram como um meteoro na graça do público e se tornaram a maior, senão única razão do sucesso da franquia - e não é à toa que, mesmo sendo personagens secundários, eles estão presentes de forma esmagadora em qualquer material relacionado aos filmes (cartazes, trailers, capa do DVD e do Blu-ray, brinquedos, etc) e nos principais argumentos utilizados pelos defensores das obras. Entretanto, já está mais do que provado que a bagunça inócua e lançadora-de-objetos-na-direção-da-plateia que caracteriza qualquer segmento audiovisual estrelado pelos minions não é capaz de sustentar ou sequer contribuir para uma construção narrativa satisfatória - o que, fatalmente, condena essa ascensão dos coadjuvantes engraçadinhos a protagonistas.

Escrito por Brian Lynch e dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin (este último responsável pelas vozes dos bichinhos), Minions introduz os personagens-título como seres fadados a servir mestres perversos e apresenta suas consecutivas e fracassadas tentativas de colaborar com grandes vilões ao longo da História. Derrotados e desiludidos, os pequeninos decidem se refugiar em uma gélida e remota caverna, onde se organizam em uma comunidade que rapidamente é afligida pelo abatimento oriundo do descumprimento de suas funções naturais. É então que três deles - o destemido líder Kevin, o músico e fã de bananas Stuart e o ingênuo Bob - decidem sair do esconderijo em busca de um vilão digno da servidão daquela tribo. Assim, o trio logo é cativado pela supervilã Scarlett Overkill (Sandra Bullock), que encomenda um grande roubo para testar as habilidades e a lealdade de seus novos capangas.

MINIONS

Apenas alguns tons menos histriônico que os dois Meu Malvado Favorito, este spin-off (ou prequel) volta os holofotes para o que havia de melhor e mais tolerável naqueles filmes sem qualquer propósito artístico ou ambição narrativa. Assim, a frágil trama é inteiramente estruturada como suporte para esquetes dos seres amarelos, que carecem de personalidades compatíveis com a centralidade dos papéis e cujo humor, predominantemente físico, flerta demasiadamente com o pastelão, saturando o espectador com tombos, sopapos e um bocado de histeria. Ainda nesse sentido, os realizadores pecam ao amontoar o filme com referências culturais que, abraçando a ambientação sessentista da trama, parecem apostar mais na vaidade dos espectadores capazes de identificá-las e compreendê-las do que na organicidade com que poderiam se encaixar na narrativa.

Por outro lado, o filme consegue arrancar uma ou outra risada quando explora aquilo que os minions possuem de melhor: a seriedade e o comprometimento nonsense com que assumem personalidades distintas ou se envolvem em atividades diversificadas, como ocorre em algumas passagens musicais, na hilária sequência em que Bob é coroado rei da Inglaterra ou na divertida montagem que exibe a jornada do restante da tribo rumo ao Reino Unido. Infelizmente, os realizadores são incapazes de identificar o potencial dessas investidas e desperdiçam a maior parte do tempo tentando conferir credibilidade à trama - que, por sinal, é repleta de arbitrariedades e inconsistências, característica marcante da franquia.

Preguiçoso a ponto de recorrer frequentemente à narração em off para que a trama seja compreendida (já que a língua própria dos minions mistura de forma imprevisível diversos idiomas humanos e fazer um trabalho genial como o de WALL•E é um desafio grande demais para os realizadores), Minions reflete a cada minuto o esforço inútil de uma equipe que, caso pudesse abandonar o pouco de dignidade que ainda lhe resta e atender às reais demandas do público, transformaria o longa em uma versão estendida da cena que surge após o fim dos créditos - uma bagunça musical, histérica, caótica e sem sentido, com toda a sorte de objetos voando na direção do público e os minions fazendo aquilo que sabem fazer de melhor: ser minions e alojar-se, sorrateiros, na mente dos consumidores. As empresas de brinquedos, guloseimas, material escolar, roupas de cama e as redes de fast food que ostentam os personagens em seus produtos e vitrines agradecem enfaticamente e mandam lembranças.

MINIONS